Notícias
27 February 2026
Fórum TSF | Importância do turismo em Portugal
O Fórum TSF debate a importância do turismo em Portugal, um setor que representa 12 a 13% da economia e emprega meio milhão de pessoas. Discutem-se os desafios do turismo de massas, a aposta na qualidade e os destinos do interior, bem como o excesso de turistas nas cidades. Intervenientes: - Dália Palma, Diretora da BTL - José Ângelo Pinto, Economista e Empresário na área do Turismo - Pedro Brinca, Professor na Nova SBE - David de Almeida, Presidente da Associação de Alojamento Local do Porto e do Norte - Bernardo Trindade, Associação de Hotelaria de Portugal - Jorge Vala, Presidente da Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria e Presidente da Câmara Municipal de Porto de Mós - João Duque, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão. >> Ouça o Programa aqui.
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26 February 2026
BPI lança 8ª Edição do Prémio Nacional de Turismo
O BPI e o Expresso apresentam, esta quinta-feira, 26 de fevereiro, na BTL, a 8.ª edição do Prémio Nacional de Turismo (PNT). Após a abertura do evento, seguiu-se uma emissão ao vivo do podcast “Quatro à conversa” do semanário Expresso, que junta três humanos e um chatbot para falar sobre “A IA no turismo”. Moderado por João Miguel Salvador, a conversa contará com a participação de Paulo Dimas, CEO do Centro para a IA Responsável, de Cristina Siza Vieira, vice-presidente Executiva na AHP – Associação da Hotelaria de Portugal, e da LUPA, o chatbot do Expresso. O Turismo é um dos principais motores da economia portuguesa, tendo registado em 2025 novos máximos em hóspedes (32,5 milhões), dormidas (82,0 milhões) e proveitos (7.154 milhões de euros). Num contexto de crescimento, mas também de desafios decorrentes das tempestades que afetaram várias regiões do país, torna-se essencial garantir condições que permitam mitigar os impactos económicos e preservar a dinâmica de crescimento e de desenvolvimento sustentável do setor. Estes e outros temas foram discutidos no debate “2026 e o turismo em Portugal”, que contou com a presença, entre outros, de José Manuel Santos, presidente da ERT do Alentejo e Ribatejo (ERTAR), e de Ana Alcobia, vice-presidente Iberia na Time Out Market, e vencedora do Prémio Personalidade na última edição do PNT. O PNT conta com cinco categorias: Turismo Autêntico, Turismo Gastronómico, Turismo Inclusivo, Turismo Comunitário e Turismo Azul. A qualidade das candidaturas é avaliada pela Deloitte, por 2 Comités e por um Júri. A inovação, a sustentabilidade e a valorização dos recursos humanos são alguns dos critérios transversais utilizados para essa avaliação e eleição dos vencedores. Será também atribuído, por nomeação, o Prémio Personalidade que pretende distinguir protagonistas cujo trabalho se tenha destacado pela sua ousadia, espírito empreendedor e/ou contributo para o desenvolvimento, reconhecimento ou reforço do posicionamento do setor do Turismo em Portugal. As candidaturas deverão ser efetuadas exclusivamente online, no site do Prémio Nacional de Turismo, em www.premionacionalturismo.pt, a partir de 16 de março até 31 de maio de 2026. O PNT é uma iniciativa do BPI e do Expresso, que conta com o apoio institucional do Turismo de Portugal e com o apoio técnico da Deloitte enquanto knowledge partner. in OpçãoTurismo
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25 February 2026
Turismo em Portugal: ambição, estratégia e responsabilidade numa década decisiva
Na maior edição de sempre da BTL – Better Tourism Lisbon Travel Market, que decorreu na FIL, a abertura da CNN Summit – Portugal Tour, confirmou aquilo que os números já evidenciam: o turismo consolidou-se como um dos pilares estruturais da economia nacional e enfrenta agora uma nova etapa, mais exigente, mais estratégica e mais responsável. O encontro, promovido pela CNN Portugal, reuniu decisores públicos, líderes empresariais e especialistas internacionais para debater uma questão central. Que turismo queremos para Portugal num contexto de reconfiguração geopolítica, pressão sobre infraestruturas, escassez de talento e transformação das expectativas de quem viaja? António Ramalho, presidente da Comissão Executiva da Lisboa FCE, recordou que em 1989 Portugal registava 22 milhões de dormidas e que hoje atinge 82 milhões, evidenciando que não se trata apenas de crescimento mas sim, uma transformação estrutural. O setor representa entre 16% e 17% do valor criado no território e pode aproximar-se dos 20% do PIB até ao final da década. Gera direta e indiretamente mais de um milhão de empregos e assegura 44% das exportações. O turismo tornou-se um dos pilares centrais do modelo económico nacional. Que turismo queremos para Portugal? Pedro Machado, secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços, apresentou um exercício de clareza estratégica que se revelou particularmente mobilizador. A resiliência do setor, defendeu, depende da capacidade de responder com rigor a cinco perguntas fundamentais: Em primeiro lugar, importa definir o que vender, ou seja, qual o produto e que proposta de valor distingue o destino. Em seguida, torna-se essencial identificar a quem vender, compreendendo com precisão os segmentos mais alinhados com essa oferta. A terceira questão prende-se com onde vender, escolhendo mercados prioritários e adequando a estratégia de promoção a cada realidade. A quarta obriga a refletir sobre por quanto vender, garantindo equilíbrio entre competitividade e rentabilidade. Por fim, vender quando implica reconhecer o momento certo, combatendo a sazonalidade e aproveitando janelas de oportunidade. “Quem sair daqui a saber responder a estas cinco perguntas vai sair daqui mais resiliente do que quando cá entrou”, afirmou. Geopolítica, globalização e o peso estratégico do turismo Paulo Portas quem elevou o debate ao plano internacional. “O turismo é a consequência mais democrática da globalização”, afirmou. Em 2025, o mundo registou cerca de 1.560 milhões de turistas internacionais, mais 60 milhões do que no ano anterior. A Europa mantém-se como principal destino global, impulsionada pelo património e pela história, mas, como alertou, “não pode tornar-se um museu”. A ascensão da China ilustra a nova geografia do turismo, quase 170 milhões de turistas chineses viajaram no último ano, um crescimento que representa, nas palavras de Portas, “uma oportunidade, não um risco”. Em sentido inverso, os Estados Unidos registaram uma contração de 6% nas receitas turísticas, demonstrando como fatores políticos e reputacionais influenciam fluxos globais. Em Portugal, os dados reforçam a trajetória ascendente, 32,5 milhões de hóspedes e 82 milhões de dormidas em 2025. “Ainda não atingimos o pico”, afirmou, advertindo, porém, para a necessidade de resolver constrangimentos estruturais, desde logo a capacidade aeroportuária. A conclusão foi clara, o turismo é o primeiro a crescer quando o mundo estabiliza e o primeiro a sofrer quando o mundo treme. Para Portugal, isso significa duas coisas. Primeiro, o país beneficia de uma reputação de segurança, hospitalidade e interna se fechar ao exterior. “Quem disser que o turismo pode sobreviver sem imigração não está a dizer a verdade”, advertiu. Entre os principais constrangimentos identificou a limitação do aeroporto de Lisboa e a necessidade de garantir capacidade adequada, numa equação que envolve também a privatização da TAP Air Portugal, "não se resolve há décadas e é um risco reputacional para Portugal". Se a procura cresce, a capacidade tem de acompanhar O aeroporto de Lisboa atravessou vários debates como um risco reputacional latente. Filas prolongadas, limitação de movimentos e pressão operacional são sinais de um sistema no limite. Carlos Moedas não esconde a apreensão quanto à capacidade aeroportuária da capital. Com o novo aeroporto ainda a vários anos de distância, o presidente da Câmara de Lisboa defende que a cidade não pode permanecer inativa durante esse período. Trata-se, sublinha, de uma questão com impacto direto na economia e na competitividade internacional. A conectividade, acrescenta, não se esgota no transporte aéreo. Carlos Moedas tem igualmente defendido a concretização da ligação ferroviária de alta velocidade entre Lisboa e Madrid, considerando-a determinante para reforçar a atratividade da capital. Para competir num contexto europeu exigente, uma cidade precisa de estar ligada e integrada em redes de mobilidade eficientes. Tamur Goudarzi-Pour, vice-presidente executivo da Lufthansa, foi direto: “Há uma necessidade imediata de mudar alguma coisa e aumentar a capacidade do aeroporto de Lisboa.” A companhia, presente em Portugal há sete décadas, considera-se complementar à TAP Air Portugal e vê no hub de Lisboa uma ponte estratégica entre Europa e América do Sul. Do lado da gestão aeroportuária, Thierry Ligonnière, CEO da ANA Aeroportos de Portugal, garantiu que estão em curso investimentos superiores a 300 milhões de euros, incluindo a expansão do Terminal 1, novas mangas e melhorias operacionais que permitirão elevar progressivamente a capacidade nos próximos cinco anos. O ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, assegurou que não haverá recurso ao Orçamento do Estado para financiar o futuro Aeroporto Luís de Camões, defendendo o princípio do utilizador-pagador e rejeitando aumentos imediatos de taxas para suportar o investimento. A privatização da TAP deverá conhecer desenvolvimentos até meio do ano, com três grandes grupos europeus interessados, num processo que o Governo garante cumprir rigorosamente. Capital humano: vender experiência, não desconto Num setor de serviços, a diferença raramente está apenas na infraestrutura, está também nas pessoas. A intervenção do gestor Carlos Tavares, defendeu que num mercado onde destinos competem globalmente, o capital humano é o verdadeiro diferenciador. “Aprender a vender valor de experiência em vez de vender descontos” foi uma das ideias-chave. Para o gestor, o contacto humano constitui fator crítico de diferenciação. “O cliente não é um utente.” A empatia, a compreensão da psicologia de quem visita e a qualidade do serviço determinam fidelização e reputação. Num mercado onde o luxo é redefinido como qualidade de tempo, o capital humano torna-se o principal ativo. O luxo mudou, o cliente também Se as infraestruturas são condição de acesso, a experiência é condição de fidelização. No painel dedicado ao investimento, emergiu uma redefinição do conceito de luxo. Francisco Moser, da Arrow Global Portugal, sintetizou a tendência: o luxo mede-se em tempo, tranquilidade e autenticidade, Já Cristina Siza Vieira, vice-presidente executiva da AHP, sublinhou que Portugal já possui destinos de hiperluxo, como a Comporta, e que este segmento registou crescimento de 11%, refletindo uma procura global por autenticidade sofisticada, mas há setores importantes que Portugal tem para explorar, como é o caso das "viagens solo", sobretudo de mulheres. Sean Moriarty, CEO Quinta do Lago, destacou a importância das decisões locais céleres, enquanto Mariano Faz, CEO da Ace Hospitality Management, questionou a criação de novas marcas face ao investimento exigido para consolidá-las. A lógica de franchise surge, segundo Olivier Jacquet, COO - Europe da United Hospitality Management (UHM), como modelo com menor risco e maior eficiência de capital. No painel, ficou expresso que alcançar o topo representa apenas uma etapa. A manutenção desse posicionamento depende de planeamento urbano consistente, salvaguarda ambiental e decisões autárquicas orientadas por visão estratégica. Turismo, cidades e equilíbrio comunitário Em Lisboa, a receita anual da taxa turística ronda os 80 milhões de euros. Carlos Moedas, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, reconhece tratar-se de um montante expressivo, mas afasta a ideia de que essa verba possa, por si só, resolver o desafio estrutural da habitação na capital. Na sua perspetiva, a dimensão do problema exige uma resposta à escala europeia, defendendo a criação de um instrumento semelhante a um Plano de Recuperação e Resiliência especificamente direcionado para a habitação. Em Lisboa, a receita anual da taxa turística ronda os 80 milhões de euros. Carlos Moedas, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, reconhece tratar-se de um montante expressivo, mas afasta a ideia de que essa verba possa, por si só, resolver o desafio estrutural da habitação na capital. Na sua perspetiva, a dimensão do problema exige uma resposta à escala europeia, defendendo a criação de um instrumento semelhante a um Plano de Recuperação e Resiliência especificamente direcionado para a habitação. Carlos Moedas destaca ainda que 67 milhões de euros provenientes da taxa turística estão a ser canalizados para a requalificação de equipamentos e monumentos, bem como para melhorias no espaço público, reforçando a ideia de que o turismo gera retorno direto para a cidade. Pedro Duarte, Presidente da Câmara Municipal do Porto, adota uma posição de equilíbrio e afirma não ter dúvidas quanto ao impacto positivo do turismo, tanto no plano económico como na transformação da cidade numa realidade mais aberta, cosmopolita e culturalmente dinâmica. Contudo, alerta para a necessidade de ponderação. Na sua leitura, qualquer atividade tem limites e, a partir de determinado ponto, o excesso pode comprometer o equilíbrio urbano. Defende, por isso, políticas regulatórias que maximizem benefícios e previnam impactos negativos. O objetivo não passa por travar o crescimento, mas por o enquadrar numa lógica de maturidade. O Porto encontra-se, segundo o autarca, numa fase avançada desse percurso e deve agora privilegiar qualidade em detrimento de quantidade, seja na duração média das estadias, seja na melhor distribuição territorial dos fluxos. Pedro Duarte é claro quanto ao princípio orientador: sempre que o turismo interfira com a qualidade de vida de quem reside na cidade, impõe-se intervenção. Já Carlos Moedas contesta a ideia de que o turismo não contribui para o desenvolvimento urbano e recorda que cerca de 20% do emprego em Lisboa está ligado ao turismo e sustenta que, sem esta atividade, a cidade teria menor dinamismo económico. Para contrariar essa perceção, aponta o exemplo da taxa turística, incluindo a aplicada aos cruzeiros, cujas receitas têm sido direcionadas para a melhoria do espaço público, reforço da limpeza urbana e valorização de museus e equipamentos culturais. Na sua visão, alimentar uma divisão entre visitantes e residentes constitui um erro estratégico, uma vez que os benefícios do turismo repercutem-se diretamente na qualidade de vida da cidade. Crescer Sem Massificar: O Desafio Regional Na intervenção dedicada ao papel do turismo como motor económico, José Manuel Bolieiro defendeu que a distância do arquipélago deve ser encarada como vantagem estratégica. Ainda que reconheça que a localização possa representar um obstáculo para alguns viajantes, sustenta que essa singularidade pode transformar os Açores num destino de paragem privilegiada, integrado em roteiros mais amplos. O presidente do Governo Regional, assegura que existe margem para crescer sem risco de massificação, o objetivo passa por reforçar a oferta ao longo de todo o ano e distribuí-la pelas nove ilhas, garantindo equilíbrio territorial e sustentabilidade. A ligação aérea é, por isso, considerada decisiva. Bolieiro entende que a superação da descontinuidade territorial depende de ligações eficazes ao exterior. No que respeita à privatização da Azores Airlines, afirma que a responsabilidade do acionista público passa por posicionar a companhia no mercado, reforçando o potencial dos Açores como hub atlântico, sem comprometer a rede de ligações assegurada pelas 16 transportadoras que atualmente operam no arquipélago. André Gomes, presidente do Turismo do Algarve, destacou a evolução estratégica da região ao longo de mais de cinco décadas. Com 55 anos de afirmação enquanto destino internacional, o Algarve, afirma, tem demonstrado capacidade contínua de adaptação às exigências do mercado. Hoje, a região já não depende exclusivamente do binómio sol e praia ou do golfe. A aposta na diversificação de mercados e de produtos permitiu ampliar o posicionamento do destino e reforçar a sua competitividade. No combate à sazonalidade, André Gomes sublinha que o Algarve regista atualmente uma das taxas mais baixas dos últimos anos. A estratégia passa por atrair mercados menos concentrados nos meses de verão e por consolidar segmentos como o turismo náutico e o turismo de natureza, contribuindo para uma procura mais equilibrada ao longo do ano. Da Consolidação à Visão Estratégica do Futuro A CNN Summit – Portugal Tour deixou uma conclusão clara e incontornável: Portugal ainda não atingiu o seu máximo potencial turístico, contudo, encontra-se num ponto de maturidade em que cada decisão política, empresarial ou regulatória, produzirá efeitos estruturais e duradouros. O turismo deixou de ser uma simples aposta estratégica e constitui hoje, um compromisso colectivo com impacto económico, social e territorial. A questão que permanece já não se prende com a necessidade de continuar a crescer. O verdadeiro desafio reside na capacidade de definir um caminho assente em visão, disciplina e ambição estratégica, garantindo que o próximo ciclo de desenvolvimento supere o anterior em qualidade, sustentabilidade e valor criado para o país. in CNN Portugal
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05 February 2026
Entrevista a Bernardo Trindade | “Continuar a licenciar hotéis em Lisboa e no Porto sem olhar para a procura pode traduzir-se numa situação difícil”
Depois de vários anos de crescimento acelerado, a hotelaria portuguesa entra em 2026 numa fase de “planalto”, com sinais de pressão sobretudo em Lisboa. O presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), Bernardo Trindade, defende a realização de um estudo de carga para a capital, mostra-se preocupado com o funcionamento do aeroporto de Lisboa a partir de março, com o fim da moratória dos controlos, e rejeita o uso da taxa turística para financiar transportes gratuitos para residentes. A entrevista acontece numa altura em que a AHP se prepara para realizar o seu congresso anual, entre 11 e 13 de fevereiro, no Porto, sob o mote “Wake Up Call: Despertar para a Mudança”, que marca o regresso do congresso à cidade mais de duas décadas depois e que, nas palavras do presidente, pretende “acordar” o setor para um contexto diferente daquele vivido no pós-Covid. Quando olha para 2025, confirma o que disse em novembro — que os números ficariam, na melhor das hipóteses, ao nível de 2024 — ou confirma-se afinal que o ano acabou por ser pior? Acho que o balanço que se pode fazer, com base numa informação que, não sendo oficial nem oficiosa, foi avançada pelo secretário de Estado do Turismo relativamente aos números finais, é que a receita turística de 2025 cresceu efetivamente. Ainda não atingiu os 30 mil milhões de euros, ficou nos 29,8 mil milhões, o que compara com os 28 mil milhões de 2024. Portanto, isso traduz uma evolução positiva. Aquilo que eu verifico — e tenho de facto um ângulo de observação favorável, porque o grupo que represento está presente em várias geografias — é que há comportamentos diferentes. Ou seja, a Madeira está muito bem; o Porto e o Algarve apresentaram em 2025, não com a mesma pujança da Madeira, mas evoluções positivas. Aquilo que sinto, com base nos nossos números e também no que temos vindo a conversar com vários hoteleiros da cidade, é que, sobretudo, neste segundo semestre começaram a sentir algumas dificuldades, porque o termo comparativo era o ano anterior, que tinha corrido muito bem. Portanto, em suma, respondendo à sua pergunta, diria que o resultado final é ainda positivo, embora não com uma taxa de crescimento tão acentuada como em anos anteriores. Ainda assim, trata-se de um crescimento assimétrico: em determinadas regiões o comportamento foi melhor, com a Madeira a liderar. Em Lisboa ainda não temos os resultados finais, mas antecipo dificuldades. Foi isso que senti nos nossos hotéis em Lisboa. Eu falo nesta entrevista como presidente da Associação da Hotelaria de Portugal, mas tenho esta característica adicional de manter ligação direta à produção, e isso dá-me estas nuances. O que é que, no seu entender, explica estes maus resultados de Lisboa? Em primeiro lugar, claramente, a nossa incapacidade de crescer no aeroporto de Lisboa. O facto de estarmos condicionados neste crescimento — e os dados da ANA Aeroportos mostram que, em 2025, o crescimento foi absolutamente residual — traduziu-se nos níveis de ocupação dos hotéis e, inclusive, nos níveis de preço. O preço não conseguiu acompanhar a quebra da ocupação. Em termos de RevPAR, que combina estes dois fatores, o resultado não foi positivo. Portanto, diria que o constrangimento da procura, a incapacidade de responder às companhias aéreas que querem voar para Lisboa, traduziu-se numa degradação dos números. A isto acresce o facto de o número de hotéis continuar a crescer. O que verifico é que temos os mesmos clientes — leia-se, os que chegam por via aérea — distribuídos por mais hotéis. Isso tem uma tradução imediata nas taxas de ocupação. A perspetiva futura não é particularmente animadora. Prevêem-se até 2028 mais dezenas de hotéis em Lisboa e no Porto. Recentemente soubemos que a TAP vai ancorar a sua estratégia de crescimento de novas rotas no aeroporto Francisco Sá Carneiro, o que é positivo para a região, mas não deixo de olhar com preocupação para o facto de se continuarem a licenciar unidades hoteleiras em Lisboa e no Porto, fruto da confiança dos empreendedores nas cidades. Sem olhar para a procura, isto pode traduzir-se numa situação difícil. O que é que defende? Que se deixe de licenciar? Disse-o aos candidatos à Câmara de Lisboa, em duas sessões organizadas pela AHP, com o engenheiro Carlos Moedas e a doutora Alexandra Leitão. Já o reiterei ao novo diretor-geral da Associação Turismo de Lisboa, António Valle: devemos, de forma tranquila mas determinada, fazer um estudo de carga. Se estou limitado na procura e não consigo crescer, tenho de olhar para as infraestruturas e para a pegada em vários níveis — hotelaria, alojamento local, restauração, animação turística, tuk-tuks —, ou seja, para a experiência que o cliente tem. Assim, quem vem pode ter uma experiência alinhada com as expectativas e, simultaneamente, eu posso, via preço, corrigir alguma falta de ocupação. Lisboa: “devemos, de forma tranquila mas determinada, fazer um estudo de carga, liderado, idealmente, pela Associação Turismo de Lisboa, financiado pela taxa turística, para termos uma radiografia rigorosa do que se passa na cidade” A AHP está disponível para colaborar ou liderar esse estudo? Estamos completamente disponíveis para participar ativamente. A AHP representa a hotelaria, mas há outras associações com forte representação em Lisboa: a ALEP, a AHRESP, a ARAC, a APECATE e a APAVT, no que diz respeito ao recetivo. Todos devemos participar num estudo liderado, idealmente, pela Associação Turismo de Lisboa, financiado pela taxa turística, para termos uma radiografia rigorosa do que se passa na cidade. Aeroporto de Lisboa Costuma dizer que o aeroporto de Lisboa não serve apenas a capital, mas todo o país. Estamos a perder oportunidades noutras regiões por causa deste constrangimento? Aquilo que se passa no Aeroporto de Lisboa, atualmente, é para mim um motivo de grande preocupação. Neste momento estamos a gravar esta entrevista em janeiro e temos ainda a moratória da entrada em vigor do Sistema de Entrada e Saída (EES). Não sabemos o que vai acontecer a partir do dia 31 de março, ou seja, quando esse sistema entrar efetivamente em vigor. Ainda que tenhamos hoje agentes da GNR a trabalhar em conjunto com os agentes que estavam e que estão no Aeroporto de Lisboa, e sabendo também o esforço que a ANA Aeroportos está a fazer no sentido de encontrar espaço para instalar mais boxes, eu diria que, a partir de 31 de março, com o fim da moratória do EES, se junta ainda um outro fator que soubemos há pouco tempo e que é também motivo de preocupação. Esse fator prende-se com o facto de o consórcio da Iberia ter ganho o concurso para os aeroportos nacionais, substituindo a Menzies. Essa transição vai acontecer em maio. Maio já é um mês de grande procura na cidade de Lisboa e juntar este constrangimento aos constrangimentos que todos nós já sabemos que existem leva-me a antecipar que vai ser, novamente, um ano difícil. Nesse contexto, a nossa principal infraestrutura aeroportuária continuará a ser um péssimo cartão de visita para quem visita Portugal. Tem garantia de que o Governo está a agir? Sente que estão a ser ouvidos? Estamos a ser ouvidos. O reforço de agentes e a procura de soluções são respostas positivas, mas estamos num período de menor procura e ainda sob moratória. A minha preocupação é o que acontece a partir de 31 de março. Estamos totalmente disponíveis para trabalhar com o Governo, partilhando informação que recolhemos diretamente junto dos clientes nos hotéis. Essa informação deve ser partilhada e usada para corrigir problemas. Temos insistido nisso junto da ministra da Administração Interna, através da Confederação do Turismo de Portugal. Afirmou que “o Estado falha”. Falha em quê? O aeroporto de Lisboa é um excelente exemplo do falhanço do Estado, não apenas deste Governo, mas dos sucessivos. Falha como concedente, ao não garantir que as condições da concessão são cumpridas; falha na segurança e no controlo de acessos; e falha, sobretudo, na salvaguarda da imagem do país. Porque, repare, eu posso fazer — e estamos a fazer —, todos os empreendedores estão a fazer investimentos importantíssimos no nosso país, em resultado do clima de confiança que a nossa atividade económica introduziu. Mas há aqui, de facto, uma desilusão: se, logo na porta de entrada, a experiência que o cliente tem é desta natureza, então significa que quem tem a responsabilidade de assegurar essa imagem está a falhar. “O aeroporto de Lisboa é um excelente exemplo do falhanço do Estado, não apenas deste Governo, mas dos sucessivos. Falha como concedente, ao não garantir que as condições da concessão são cumpridas; falha na segurança e no controlo de acessos; e falha, sobretudo, na salvaguarda da imagem do país”. 2026 Disse que os próximos cinco anos vão ser os mais desafiantes. O setor está preparado para deixar de crescer sem entrar em pânico? Nós vivemos tempos muito positivos no pós-Covid. Até o próprio Covid foi uma situação completamente nova para todos nós: hotéis encerrados, pessoas em casa, clientes nos destinos e nas origens. Mas, no pós-Covid, recuperámos muito mais rapidamente do que esperávamos. Estamos agora numa fase que é tipicamente uma fase de planalto, em que os números vão começar a consolidar-se — em algumas regiões um pouco mais, noutras um pouco menos —, e temos de nos preparar para isso. O que acontece é que toda a nossa cadeia de valor, toda a cadeia de despesa, também tem de se ir acomodando. Ou seja, como é evidente, eu sou muito partidário — e desde que sou presidente da Associação da Hotelaria de Portugal, e mesmo antes, quando estava na Hotelaria de Portugal — da revisão do contrato coletivo de trabalho com o SITESE, nomeadamente nas questões remuneratórias e nas condições salariais. Mas aquilo que sinto é que vamos entrar numa fase em que tudo isto vai ter de começar a ser repensado. Todos os serviços que são fundamentais ao normal funcionamento de um hotel, ou toda a cadeia de valor do setor do turismo, vão ter de se acomodar. Porquê? Porque, do ponto de vista da receita, vamos entrar num período diferente daquele a que assistimos nos últimos anos do pós-Covid. “Estamos agora numa fase que é tipicamente uma fase de planalto, em que os números vão começar a consolidar-se — em algumas regiões um pouco mais, noutras um pouco menos —, e temos de nos preparar para isso” Mas a hotelaria, enquanto setor, está nesse estado de maturidade, de perceber que não se pode crescer sempre a estes ritmos? Nós temos demonstrado, ao longo de muitos anos, capacidade de adaptação. E vamos voltar a fazê-lo. O meu papel, enquanto responsável da Associação da Hotelaria de Portugal, é alertar para períodos que não terão o fulgor que tivemos até agora, por uma razão simples: não estamos sozinhos no mundo. Há um conjunto de destinos, à escala global, que se reposicionaram e que são muito competitivos do ponto de vista das condições de acesso. Isto não é novo. Há 20 anos, e antes das Primaveras Árabes, Portugal sofreu forte concorrência de destinos como a Turquia, a Tunísia e o Egito. Assistimos também à grande operação turística tradicional a redirecionar a oferta aérea para esses destinos, em detrimento de Portugal. Hoje vemos um fenómeno semelhante, nomeadamente no Algarve e na Madeira, com a operação turística tradicional a canalizar transporte aéreo para outros destinos e a manter a relação com Portugal através da compra de allotments em companhias low cost. Ou seja, o risco do transporte aéreo passa para outro operador. No fim do dia, podemos perguntar qual é o grau de compromisso desses operadores com Portugal. Eventualmente diminui. É um sinal e, sobretudo, um aviso para nos mantermos competitivos. Relativamente ao preço, é expectável que baixe? Depende de unidade para unidade. Projetos bem financiados têm uma almofada que lhes permite manter preços, baixar ocupação e degradar ligeiramente o RevPAR, mas aguentar. Há outras unidades com estruturas financeiras mais frágeis que têm de atuar mais rapidamente, porque têm credores — nomeadamente financeiros — que as obrigam a reposicionar-se em termos de competitividade e preço. Olhando para 2026 e para os desafios que podem condicionar a atividade, falámos do aeroporto; falemos agora da geopolítica. Qual é o seu grau de confiança para 2026? O turismo depende muito das condições de segurança à escala global. Temos hoje duas situações inequívocas: o que se passa em Gaza e o que se passa na Ucrânia, crises que tardam em resolver-se, apesar dos esforços diplomáticos. Mas temos outras ameaças. A situação recente da Gronelândia reflete uma violação quase primária do direito internacional, com a intenção do presidente Trump de comprar aquele território, esquecendo que, no quadro da NATO — uma aliança defensiva —, as decisões devem ser tomadas colegialmente. Isto afeta o turismo porque cria uma perceção de insegurança à escala global, e isso não é positivo para o setor. Ainda assim, o pós-Covid gerou um sentimento muito claro de que viajar é bom, fazer turismo é bom. Obviamente, isso é melhor conseguido com condições de paz e tranquilidade. Portugal tem apostado na diversificação de mercados, nomeadamente no mercado norte-americano. Estes conflitos podem afetar essa procura? O mercado norte-americano é hoje extremamente importante para Portugal, com uma expressão fortíssima em Lisboa e no Porto. Houve um aumento expressivo da oferta aérea, com cinco companhias a operar ligações quase diárias entre os Estados Unidos e Portugal. Felizmente, o turismo não é diretamente afetado pelas tarifas do presidente Trump, porque é uma prestação de serviços. Mas temos de estar atentos aos fatores fundamentais: a experiência no aeroporto, a experiência do cliente. São esses aspetos que nos convocam a estar muito atentos. Mão de obra Falemos então da mão de obra. Qual é o ponto de situação? O ponto de situação é o ponto de situação de sempre: já não nos bastamos a nós próprios. Temos, cada vez mais, de ter pessoas de outras nacionalidades a fazer carreira e vida em Portugal. Temos também de assumir a nossa responsabilidade de nos constituirmos como uma verdadeira comunidade de acolhimento. Para quê? Para que, no final do dia, uma vez que o turismo é uma prestação de serviços, essa prestação possa ser feita com a maior competência possível. Os hoteleiros estão muito disponíveis — e já o fazem —, investem em formação, dão competências. Agora, entendemos que tivemos de regular, tivemos de controlar estes surtos migratórios, mas sem esquecer o fundamental: nós precisamos destas pessoas. Os exemplos estão à vista. Itália, que foi um dos países que mais limitou os movimentos migratórios, já reviu essa posição. O presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, anunciou recentemente a regularização imediata de cerca de meio milhão de pessoas que se encontravam numa situação precária. E porquê? Porque precisam destas pessoas. E Portugal precisa destas pessoas na agricultura, no turismo, na saúde. Aquilo que nós dizemos é o seguinte: tivemos uma fase de controlo, de perceber como regularizar situações pendentes e de ser mais exigentes na entrada de novas pessoas. Mas chegámos a este ponto e continuamos a precisar de pessoas para trabalhar. O turismo é uma atividade intensiva em mão de obra e precisa destas pessoas. A declaração de interesses foi repensada, mas é fundamental termos outro instrumento que nos permita responder afirmativamente a estas necessidades. Estamos disponíveis para assumir a nossa responsabilidade. A Via Verde, pelo que sei, não teve até agora qualquer concretização, porque faz depender — nomeadamente na questão da habitação — responsabilidades que os agentes do setor do turismo não podem assumir. Não podemos ficar no meio da ponte. O Governo tem de encontrar uma solução para que esta dinâmica, que tem sido tão positiva para a economia portuguesa, possa continuar. Defendemos partir da manifestação de interesse, corrigindo aquilo que deve ser corrigido, no sentido de garantir melhores e mais seguras condições de acesso. Devemos olhar para um bloco tão importante como os países de língua oficial portuguesa, eventualmente num quadro de discriminação positiva. O que é importante é passar esta mensagem: esta dinâmica não pode ser interrompida. Se queremos continuar a crescer — e crescer acima da média da União Europeia — com uma impressão digital chamada turismo, precisamos de pessoas. O Governo tem de arrepiar caminho e trabalharmos em conjunto. Imigração: “esta dinâmica não pode ser interrompida. Se queremos continuar a crescer — e crescer acima da média da União Europeia — com uma impressão digital chamada turismo, precisamos de pessoas. O Governo tem de arrepiar caminho e trabalharmos em conjunto” Privatização da TAP Saudou a abertura do capital da TAP a privados, mantendo o Estado 50,1% e salvaguardando o hub. Agora que se conhecem os interessados, qual é a sua principal preocupação? A minha preocupação é conhecer melhor os interessados e as propostas apresentadas. O essencial está claro: a salvaguarda da centralidade em Portugal. A TAP precisa de capital e esse capital pode vir de um parceiro com experiência no setor aeronáutico, trazendo não só financiamento, mas também know-how. Isso valoriza a companhia, desde que se salvaguarde a centralidade em Portugal, o respeito pelas regiões autónomas, pela diáspora e pelo setor do turismo. Tem opinião sobre os três candidatos? São três grupos consolidados. Confio na comissão de avaliação para escolher a melhor proposta em função do interesse nacional: uma proposta financeiramente sólida, que garanta a centralidade em Portugal, a ligação ao mundo e o desenvolvimento de novos mercados. Taxas Turísticas A Câmara do Porto quer financiar transportes gratuitos para residentes com o aumento da taxa turística. Faz sentido? Não faz sentido. A taxa turística, enquanto conceito, pressupõe uma contraprestação. Ou seja, tem de ter um objetivo concreto, e a taxa turística deve servir para investimentos que sejam absolutamente estruturantes para a atividade turística. Aceito, por exemplo, que seja utilizada para financiar a higiene urbana, porque responde à pegada deixada também pelo turismo. Isso acontece em Lisboa e poderia perfeitamente acontecer noutros municípios do país, nomeadamente no Porto. Certamente que o Porto encontrará outras fontes de financiamento para cumprir essa medida eleitoral. Não concordo que seja via taxa turística, porque a taxa turística serve fundamentalmente para financiar investimentos que interessam ao setor do turismo. No Porto há ainda um outro problema, que tem a ver com o modelo de governação da taxa. Enquanto em Lisboa os empresários e as associações participam no comité de decisão da taxa turística, no Porto isso não acontece. E a minha expectativa — direi isso no Congresso — é que o modelo de governação do Porto possa evoluir para aquilo que existe em Lisboa, ou seja, para a participação dos agentes económicos na decisão sobre a utilização da receita da taxa. A decisão é má porque desvirtua o princípio da taxa turística: uma receita entregue pelo turista deve financiar investimentos que interessem ao turismo. E, simultaneamente, a governação será, do meu ponto de vista, mais bem-sucedida se tiver a participação de quem contacta diretamente com o setor. Financiar transportes com taxa turística? Não concordo que seja via taxa turística, porque a taxa turística serve fundamentalmente para financiar investimentos que interessam ao setor do turismo. Vai aproveitar o Congresso da AHP, no Porto, para passar essa mensagem à autarquia? O Congresso do Porto representa um regresso da AHP ao Porto mais de 20 anos depois. Sei que foi em 2005, quando eu era secretário de Estado do Turismo e o presidente da AHP era Luís Alves de Sousa, e realizámos o Congresso no Sheraton, se a memória não me falha. Quisemos regressar ao Porto porque é um destino turístico e uma região que se têm vindo a afirmar de forma muito clara. Quero também saudar o trabalho de toda a estrutura da Entidade Regional de Turismo do Porto e Norte, liderada por Luís Pedro Martins, bem como o trabalho dos autarcas da região. Esse percurso tem sido absolutamente meritório e é uma história que merece ser contada. É isso que faremos no primeiro dia do congresso, dando espaço para que o tema da região Porto e Norte seja tratado. E, respondendo diretamente à sua pergunta, sim, vamos aproveitar esta oportunidade para chamar a atenção para um conjunto de aspetos, nomeadamente este aspeto local, que tem tradução e importância nacional, sobretudo numa altura em que a cidade do Porto tem vindo a ganhar um espaço muito relevante, com importantes investimentos hoteleiros e a atração de muita expertise hoteleira para a cidade. É, também, um exercício de humildade poder contar com estes parceiros. Há mais alguma mensagem que considere importante passar no congresso? Há um aspeto que para mim é muito importante. Os números são inexoráveis: o contributo do turismo para a economia, para o emprego, para as exportações e para a coesão económica e social do país é claro. O turismo está hoje muito presente. Mas há um tema que considero muito importante. Quero continuar este debate com as pessoas que, muitas vezes de forma preconceituosa, maldosa, noutras com razão, sentem ainda uma ameaça na atividade turística. Enquanto houver pessoas que se ressentem dos impactos do turismo, devemos continuar este debate, explicando o nosso propósito. Esse propósito pode ser mais bem explicado se implementarmos uma medida de que falamos há muito tempo: todos os investimentos financiados pela taxa turística devem ter um selo visível a indicar isso mesmo. Não apenas museus, mas também equipamentos simples de higiene urbana. Quando um residente vê, por exemplo, um equipamento de limpeza numa rua da sua freguesia e percebe que foi financiado pela taxa turística, começa a olhar de outra forma para o impacto do turismo. Isso não resolve todos os problemas, mas mitiga a perceção. E esse é um caminho que Portugal tem de continuar a fazer. O estudo recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos mostra que 70% dos portugueses querem turismo, mas com limites e regras claras. O setor está preparado para ouvir esta mensagem ou continua a falar apenas para dentro? O setor tem de estar disponível para ouvir, porque este é um debate de futuro. Se o turismo quer continuar a ser líder no crescimento económico, tem de perceber que a sua atividade está profundamente ligada ao território e às pessoas que cá vivem, aos residentes, aos portugueses. Este diálogo tem de continuar. Sou positivo desse ponto de vista. Acho que o setor hoteleiro se tem vindo a preparar. A prova disso foi, por exemplo, o testemunho dos presidentes das juntas de freguesia de Lisboa, quando aumentou a taxa turística. Reconheceram de forma muito clara o contributo que a hotelaria deu para a salvaguarda do interesse coletivo. A AHP vai realizar, entre 11 e 13 de fevereiro, o seu congresso anual sob o mote “Wake up Call: Despertar para a Mudança”, este congresso é para tranquilizar o setor ou para o acordar? É claramente para o acordar. No pós-Covid vivemos anos de grande fulgor, de entusiasmo nos números, no investimento e na perceção de Portugal no mundo, bem como no alargamento de mercados. Vamos agora viver um tempo diferente, um tempo de planalto, que exige que todos os agentes estejam atentos e disponíveis para falar internamente com os portugueses, mas também com quem nos visita e com quem é responsável por trazer pessoas a Portugal. Nesse sentido, não só temos de melhorar a nossa prestação interna, dentro dos hotéis, como temos de ser muito ativos nos temas estruturais que nos preocupam — desde as questões aeroportuárias à mão de obra. São temas decisivos para que o turismo continue a cumprir o seu papel em Portugal. Quem é que está mais curioso para ouvir no Congresso? Tivemos o cuidado de construir um programa equilibrado entre oradores nacionais e internacionais. Entre pessoas que trazem as questões da geopolítica e, simultaneamente, a relação que hoje o hoteleiro tem com o cliente, numa lógica cada vez mais atual e moderna. Incluímos também o uso da inteligência artificial, não para substituir a relação humana, mas para libertar tempo e permitir que essa relação seja mais qualificada, mais competente e mais próxima. É um programa que procura preparar o setor para o futuro e dar boas razões para que as pessoas regressem ao congresso. in TNews, por Carina Monteiro