Conflito no Médio Oriente redireciona turismo para sul da Europa, mas Portugal ainda fica de fora
Apesar de o setor considerar ser "prematuro" falar em desvio de turistas para o país, o Vila Galé confirma que "já têm alguns pedidos para Portugal e Brasil" do Médio Oriente e Sudeste Asiático.
A escalada do conflito no Médio Oriente começa a ter impacto nas reservas, com os turistas a procurarem destinos alternativos na Europa. Espanha, Itália e Grécia estão entre os mais procurados, enquanto Portugal ainda não se afirma como destino de substituição. O presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT) realça que ainda é prematuro falar numa mudança estrutural da procura turística. “Será cedo para falarmos num desvio massivo. Estamos perante ajustamentos pontuais, não uma mudança estrutural consolidada”, afirma Pedro Costa Ferreira, em declarações ao ECO.
O diretor-geral de vendas da Agência Abreu, Pedro Quintela, corrobora a posição de Pedro Costa Ferreira e afirma que “é prematuro falar de desvio de passageiros dos seus destinos” e que “nada indica” um desvio de procura dos destinos do Médio Oriente para as ilhas espanholas ou Portugal.
O perfil de cliente impactado é, tendencialmente, um viajante que procura experiências de longo curso, pelo que as alternativas consideradas são, sobretudo, outros destinos de longo curso, mais alinhados com as expectativas deste tipo de viagem”, remata o diretor-geral de vendas da agência de viagens. Também o presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) considera que “nesta fase ainda não sente o desvio de turistas para Portugal”, embora Bernardo Trindade reconheça que, “historicamente, Portugal sempre beneficiou quando surgem tensões ou conflitos em determinadas geografias”.
Também o presidente da Associação Nacional de Agências de Viagens (ANAV) confirma ao ECO que “Portugal, por enquanto, não se tem afirmado como um grande destino de substituição”, ao contrário de Espanha onde já “há indícios contrários, nomeadamente no que diz respeito às Ilhas e costa Sul”. “As grandes operadoras já admitem que parte da procura está a ser redirecionada para destinos europeus considerados mais seguros, e para além da Espanha, outros mercados como a Grécia e Itália também”, adianta Miguel Quintas, presidente da ANAV. Com 52 hotéis, dos quais 34 em território nacional, o administrador do Grupo Vila Galé confirma que “já têm alguns pedidos para Portugal e Brasil de operações que estavam previstas para o Médio Oriente e Sudeste Asiático“. Acreditamos que, apesar de a razão ser trágica, Portugal e Brasil podem beneficiar efetivamente desta situação”, diz ao ECO Gonçalo Rebelo de Almeida, sublinhado ainda que é “prematuro indicar se o efeito é a médio prazo”, justificando que “vai depender da solução política encontrada para o fim de conflito e a duração do mesmo”.
“No entanto, se a situação se vier a resolver no Médio Oriente nas próximas semanas, os fluxos turísticos para a região poderão ser retomados. Se o hub aeroportuário do Dubai ou do Qatar voltar à normalidade, os fluxos podem manter-se”, acrescenta o administrador do grupo que emprega 4.500 pessoas. Com mais de 40 mil voos cancelados de e para o Médio Oriente desde 28 de fevereiro, o presidente da Associação Nacional de Agências de Viagens confirma que “já existe forte perturbação no mercado, sobretudo nos destinos e ligações mais dependentes dos hubs do Golfo, com destaque para Dubai”. No caso da Turquia, o líder da ANAV recusa falar de uma vaga generalizada de cancelamentos, mas sim de “maior cautela, pedidos de esclarecimento e alguma procrastinação na decisão de compra“. No que respeita às reservas da Tunísia, Miguel Quintas assegura que “prosseguem sem alterações significativas, demonstrando até algum crescimento face ao ano passado”. Por outro lado, o presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo adianta que “caso a incerteza se mantenha, alguns destinos percecionados como seguros e com operação aérea estável poderão beneficiar de forma incremental”, apesar de considerar que essa procura tende a ser temporária. “Procura adicional provocada por circunstâncias adversas noutros destinos não é procura normal e tende a sair assim que os constrangimentos forem resolvidos”, sublinha. A viver no Dubai, Maria Inês Amaral, fundadora do Aurora Group e da Associação Portuguesa de Turismo para o Médio Oriente, considera que Portugal tem vindo a ganhar notoriedade como destino seguro, uma característica muito apreciada pelos viajantes provenientes dos Emirados Árabes Unidos. “Portugal, pelos rankings que tem de Empresários gerem crise no Golfo com teletrabalho e cautela segurança a nível mundial, sempre foi e está cada vez mais a ser um destino procurado para férias, em grande parte pela segurança, Ler Mais mas obviamente também pela hospitalidade dos portugueses e pelas paisagens”, diz a empresária, em declarações ao ECO.
O líder da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo reforça que “Portugal deve atrair procura de acordo com as suas valências turísticas, e não por externalidades temporárias na concorrência”, enfatizando que “circunstâncias como as que vivemos não beneficiam ninguém”. Conflito no Golfo leva a aumento de reservas de Páscoa em destinos europeus O conflito no Irão está a influenciar as decisões de férias da Páscoa, segundo Miguel Quintas, presidente da Associação Nacional de Agências de Viagens. O responsável identifica três fatores que moldam a decisão dos consumidores: “perceção de segurança, instabilidade operacional e subida dos custos, em especial no transporte aéreo”. “Para a Páscoa, o impacto é mais imediato, porque estamos a falar de reservas de muito curto prazo e de muitas viagens de famílias, as quais que privilegiam previsibilidade. Para o Verão, ainda é cedo para dizer que haverá uma alteração estrutural do mercado, mas é evidente que o consumidor está mais atento ao risco geopolítico e, consequentemente, mais inclinado a escolher destinos percebidos como estáveis”, explica Miguel Quintas, líder da ANAV. O presidente da ANAV acrescenta que “é razoável afirmar que se está a registar um aumento das reservas de Páscoa para destinos europeus à custa da fuga ao Médio Oriente, embora sem confirmar ainda uma mudança de fundo para maio, junho e julho”. Impactos no espaço aéreo e no turismo religioso O presidente da Associação da Hotelaria de Portugal, Bernardo Trindade, admite que o país começa a sentir alguns efeitos do conflito, sobretudo nas ligações aéreas. “Aquilo que resulta de escalas no Dubai está neste momento a ser impactado. Ainda não consigo, nesta fase, estimar o montante”, afirmou.
Algumas regiões portuguesas já sentem consequências do encerramento do espaço aéreo nas áreas afetadas. Entre elas está Fátima, que recebe turistas de mercados mais distantes motivados pelo turismo religioso. “Regiões como Fátima têm alguma prevalência destes mercados longínquos que vêm, no fundo, com grande motivação de turismo religioso”, explica Bernardo Trindade. Crise no Golfo encarece passagens e ameaça contas da TAP Ler Mais O ano passado, o Santuário de Fátima recebeu 6,5 milhões de peregrinos, o que representa um aumento de 241.913 fiéis face ao ano anterior, com a instituição a destacar o aumento do número de grupos de fiéis registados, particularmente oriundos da Indonésia, segundo uma nota enviada à agência Lusa.
in ECO, por Fátima Castro