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Casual Friday | O Turismo num mundo imperfeito

“O Turismo num mundo imperfeito”. A minha tese de base é simples e pragmática: o mundo é imperfeito, sempre foi. A hospitalidade permanece essencial. E o Turismo organizado, tal como o conhecemos, é estruturalmente irreversível. Pode mudar de ritmo, de geografia e de formatos, mas não desaparece”

Chegados há pouco de mais um (o 35.º) Congresso da AHP- Associação da Hotelaria de Portugal e eis que nos cai em cima mais uma guerra. Sim, mais uma. Parece que para provar o acerto do lema escolhido para o Congresso: Wake Up Call: Despertar para a Mudança. E, particularmente, para o eixo sobre o qual rodou a primeira manhã Wake up & Face Reality, onde a geopolítica foi o centro da conversa.

Foi mesmo pontaria. Acerto pelo tom, pelo momento e até pelo gancho de comunicação que permitiu.

Nessa manhã, 12 de Fevereiro, retratou-se um sistema internacional mais fragmentado, menos previsível, com um regresso assumido da lógica de poder – e com impactos diretos na economia, no investimento e na confiança.

Foi nesse contexto que apresentei a minha intervenção, “O Turismo num mundo imperfeito”. A minha tese de base é simples e pragmática: o mundo é imperfeito, sempre foi. A hospitalidade permanece essencial. E o Turismo organizado, tal como o conhecemos, é estruturalmente irreversível. Pode mudar de ritmo, de geografia e de formatos, mas não desaparece.

Segue um resumo e justificação da tese.

Muito antes de existir “Turismo”, sempre existiram viagens e deslocações. Deslocações por comércio, fé, sobrevivência, curiosidade, ambição ou fuga. Necessidade, não lazer.

E depois, desde o nascimento do Turismo, no sec XIX, que o seu crescimento é imparável. A acompanhar este movimento de democratização do acesso e aprofundamento dos fluxos turísticos, reforça-se a globalização. E a crença de que esta, pela interdependência benigna entre Estados e blocos económicos, traria um mundo mais previsível, mais organizado e cooperativo. E quiçá, melhor1.

Esse tempo passou, porque a segunda década do século XXI tratou de nos explicar exactamente o contrário.

Disse na minha intervenção que havíamos acordado da pandemia para a guerra. Da guerra para a inflação. Da inflação para a instabilidade energética. Há 4 anos, a invasão da Ucrânia devolveu a guerra em larga escala à Europa. Seguiu-se o ataque do Hamas e a resposta de Israel, que mergulharam novamente o Médio Oriente numa espiral de violência. A isto junta-se uma guinada repentina na política externa (e interna, mas agora isso não vem ao caso) norte- americana, associada ao regresso de Trump e a uma doutrina estritamente transacional, menos multilateral e centrada exclusivamente no interesse nacional americano, naturalmente coincidente com o de Trump himself. “L’ État c´est moi” à americana. Resultado? Um mundo mais competitivo, duro e imprevisível, nervoso e perigoso. Muito perigoso.

E, no entanto, disse-o então, as pessoas continuam e continuarão a viajar. Como o fizeram desde sempre e ao longo do século XX e início do século XXI, apesar das, ou sempre em convivência com, crises. Guerras mundiais suspenderam fluxos turísticos. Choques petrolíferos
alteraram custos e comportamentos. O terrorismo internacional; o 11 de setembro; a crise financeira global de 2008; a invasão do Iraque; a guerra na ex-Jugoslávia; as epidemias e a pandemia de COVID-19 provocaram quebras abruptas (e recuperações vigorosas).

Viajamos não porque ignoremos o que se passa, mas porque viajar faz parte da nossa condição humana. A história da humanidade é, em grande medida, a história de pessoas em movimento.

A hospitalidade nasce aí. Não como luxo nem como experiência. Mas como necessidade básica de um tecto, de uma refeição, de um lugar onde repousar e ganhar forças para continuar.

E muito mais tarde, quando esse impulso ancestral se transforma numa actividade organizada, a que chamámos Turismo, convém lembrar que ela não nasce da estabilidade. Nasce da transformação. Da necessidade de criar ordem num mundo que muda.

É aqui que a hospitalidade que a hotelaria presta assume um papel fundamental. Porque a hotelaria é a infraestrutura sem a qual não há Turismo. Um hotel cria continuidade num mundo descontínuo. Garante rotina, serviço, acolhimento, previsibilidade. Um hotel é, na sua essência, um pequeno mundo funcional. Há luz quando lá fora falta. Há água quente. Há alguém que recebe. Há rotinas. Há serviço. Há normalidade quando o exterior é volátil. E a normalidade em tempos de instabilidade e crise transforma-se num bem raro, que, como os bens raros, ganha valor.

Pensem por vocês. Depois das crises, viajar deixa de ser apenas lazer e passa a ser terapêutico. Viaja-se para recuperar, física e espiritualmente, para respirar, para nos religarmos ao Mundo
e a nós, as nossas pausas têm um significado. “Preciso mesmo de me mimar”, dizemos.

Ora, num mundo imperfeito, esta necessidade de viajar não é romantismo (embora também o seja um bocadinho, certo?). Para os operadores turísticos e para os países, esta pulsão é estratégica, é negócio.

Por isso, quando hoje se fala do impacto das crises no Turismo, convém ter calma e memória.

Porque o Turismo tal como o conhecemos não vai desaparecer. Vai mudar. Está a mudar. De forma desigual, imperfeita, por vezes caótica. Como o mundo. A questão não é se haverá incerteza. Haverá sempre. A questão é quem sabe funcionar bem dentro dela. Mais uma vez, na história e na natureza, sobrevive (e prospera) quem melhor se adapta.

É quando tudo parece instável que procuramos a mesma coisa. Um lugar onde possamos
chegar e sentir, quando não podemos estar em casa: “Chegaste. Estás seguro. Amanhã decides
o próximo passo.”

PS: Entretanto, e apesar do tom positivo desta minha intervenção de 12 de fevereiro, que mantenho, hoje não podemos deixar de temer os efeitos do que se está a passar no braseiro
que está a consumir o Médio Oriente, depois do ataque dos EUA e Israel ao Irão e das tomadas de posição dos estados europeus. Infelizmente, e mais do que outras crises que vieram a
acontecer desde a COVID, creio que esta vai ter impactos directos e indirectos, imediatos e
mais prolongados, no Turismo mundial e também em Portugal. Apesar de sermos um oásis de
paz. E não deixa de ser profundamente assustadora a deriva pro-bélica que estamos a ver em
directo. Independentemente da capacidade que o Turismo tem de sobreviver a perigos e
perturbações, quem o pratica são as pessoas. Claro que muito vai depender do tempo que esta
crise demorará a resolver-se (ou talvez seja melhor dizer, a normalizar-se). Ou então sou que
hoje estou mais pessimista…

Por Cristina Siza Vieira

É vice-presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal e uma das vozes mais influentes no setor turístico nacional. Na sua coluna mensal Casual Friday, publicada sempre na primeira sexta-feira de cada mês, escreve sobre tudo o que merece reflexão: desde o turismo e a hotelaria até às questões que nos tocam no dia a dia e aos temas que agitam o mundo.

1A tese de “ O Mundo é Plano —Uma História Breve do Século XXI”, lançado em 2005, é um excelente exemplo dessa convicção e optimismo.

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