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Entrevista a Bernardo Trindade | “Continuar a licenciar hotéis em Lisboa e no Porto sem olhar para a procura pode traduzir-se numa situação difícil”

Depois de vários anos de crescimento acelerado, a hotelaria portuguesa entra em 2026 numa fase de “planalto”, com sinais de pressão sobretudo em Lisboa. O presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), Bernardo Trindade, defende a realização de um estudo de carga para a capital, mostra-se preocupado com o funcionamento do aeroporto de Lisboa a partir de março, com o fim da moratória dos controlos, e rejeita o uso da taxa turística para financiar transportes gratuitos para residentes. A entrevista acontece numa altura em que a AHP se prepara para realizar o seu congresso anual, entre 11 e 13 de fevereiro, no Porto, sob o mote “Wake Up Call: Despertar para a Mudança”, que marca o regresso do congresso à cidade mais de duas décadas depois e que, nas palavras do presidente, pretende “acordar” o setor para um contexto diferente daquele vivido no pós-Covid.

Quando olha para 2025, confirma o que disse em novembro — que os números ficariam, na melhor das hipóteses, ao nível de 2024 — ou confirma-se afinal que o ano acabou por ser pior?

Acho que o balanço que se pode fazer, com base numa informação que, não sendo oficial nem oficiosa, foi avançada pelo secretário de Estado do Turismo relativamente aos números finais, é que a receita turística de 2025 cresceu efetivamente.

Ainda não atingiu os 30 mil milhões de euros, ficou nos 29,8 mil milhões, o que compara com os 28 mil milhões de 2024. Portanto, isso traduz uma evolução positiva. Aquilo que eu verifico — e tenho de facto um ângulo de observação favorável, porque o grupo que represento está presente em várias geografias — é que há comportamentos diferentes. Ou seja, a Madeira está muito bem; o Porto e o Algarve apresentaram em 2025, não com a mesma pujança da Madeira, mas evoluções positivas.

Aquilo que sinto, com base nos nossos números e também no que temos vindo a conversar com vários hoteleiros da cidade, é que, sobretudo, neste segundo semestre começaram a sentir algumas dificuldades, porque o termo comparativo era o ano anterior, que tinha corrido muito bem.

Portanto, em suma, respondendo à sua pergunta, diria que o resultado final é ainda positivo, embora não com uma taxa de crescimento tão acentuada como em anos anteriores. Ainda assim, trata-se de um crescimento assimétrico: em determinadas regiões o comportamento foi melhor, com a Madeira a liderar. Em Lisboa ainda não temos os resultados finais, mas antecipo dificuldades. Foi isso que senti nos nossos hotéis em Lisboa. Eu falo nesta entrevista como presidente da Associação da Hotelaria de Portugal, mas tenho esta característica adicional de manter ligação direta à produção, e isso dá-me estas nuances.

O que é que, no seu entender, explica estes maus resultados de Lisboa?

Em primeiro lugar, claramente, a nossa incapacidade de crescer no aeroporto de Lisboa. O facto de estarmos condicionados neste crescimento — e os dados da ANA Aeroportos mostram que, em 2025, o crescimento foi absolutamente residual — traduziu-se nos níveis de ocupação dos hotéis e, inclusive, nos níveis de preço. O preço não conseguiu acompanhar a quebra da ocupação.

Em termos de RevPAR, que combina estes dois fatores, o resultado não foi positivo. Portanto, diria que o constrangimento da procura, a incapacidade de responder às companhias aéreas que querem voar para Lisboa, traduziu-se numa degradação dos números.

A isto acresce o facto de o número de hotéis continuar a crescer. O que verifico é que temos os mesmos clientes — leia-se, os que chegam por via aérea — distribuídos por mais hotéis. Isso tem uma tradução imediata nas taxas de ocupação.

A perspetiva futura não é particularmente animadora. Prevêem-se até 2028 mais dezenas de hotéis em Lisboa e no Porto. Recentemente soubemos que a TAP vai ancorar a sua estratégia de crescimento de novas rotas no aeroporto Francisco Sá Carneiro, o que é positivo para a região, mas não deixo de olhar com preocupação para o facto de se continuarem a licenciar unidades hoteleiras em Lisboa e no Porto, fruto da confiança dos empreendedores nas cidades. Sem olhar para a procura, isto pode traduzir-se numa situação difícil.

O que é que defende? Que se deixe de licenciar?

Disse-o aos candidatos à Câmara de Lisboa, em duas sessões organizadas pela AHP, com o engenheiro Carlos Moedas e a doutora Alexandra Leitão. Já o reiterei ao novo diretor-geral da Associação Turismo de Lisboa, António Valle: devemos, de forma tranquila mas determinada, fazer um estudo de carga.

Se estou limitado na procura e não consigo crescer, tenho de olhar para as infraestruturas e para a pegada em vários níveis — hotelaria, alojamento local, restauração, animação turística, tuk-tuks —, ou seja, para a experiência que o cliente tem. Assim, quem vem pode ter uma experiência alinhada com as expectativas e, simultaneamente, eu posso, via preço, corrigir alguma falta de ocupação.

Lisboa: “devemos, de forma tranquila mas determinada, fazer um estudo de carga, liderado, idealmente, pela Associação Turismo de Lisboa, financiado pela taxa turística, para termos uma radiografia rigorosa do que se passa na cidade”

A AHP está disponível para colaborar ou liderar esse estudo?

Estamos completamente disponíveis para participar ativamente. A AHP representa a hotelaria, mas há outras associações com forte representação em Lisboa: a ALEP, a AHRESP, a ARAC, a APECATE e a APAVT, no que diz respeito ao recetivo.

Todos devemos participar num estudo liderado, idealmente, pela Associação Turismo de Lisboa, financiado pela taxa turística, para termos uma radiografia rigorosa do que se passa na cidade.

Aeroporto de Lisboa

Costuma dizer que o aeroporto de Lisboa não serve apenas a capital, mas todo o país. Estamos a perder oportunidades noutras regiões por causa deste constrangimento?

Aquilo que se passa no Aeroporto de Lisboa, atualmente, é para mim um motivo de grande preocupação. Neste momento estamos a gravar esta entrevista em janeiro e temos ainda a moratória da entrada em vigor do Sistema de Entrada e Saída (EES). Não sabemos o que vai acontecer a partir do dia 31 de março, ou seja, quando esse sistema entrar efetivamente em vigor.

Ainda que tenhamos hoje agentes da GNR a trabalhar em conjunto com os agentes que estavam e que estão no Aeroporto de Lisboa, e sabendo também o esforço que a ANA Aeroportos está a fazer no sentido de encontrar espaço para instalar mais boxes, eu diria que, a partir de 31 de março, com o fim da moratória do EES, se junta ainda um outro fator que soubemos há pouco tempo e que é também motivo de preocupação.

Esse fator prende-se com o facto de o consórcio da Iberia ter ganho o concurso para os aeroportos nacionais, substituindo a Menzies. Essa transição vai acontecer em maio. Maio já é um mês de grande procura na cidade de Lisboa e juntar este constrangimento aos constrangimentos que todos nós já sabemos que existem leva-me a antecipar que vai ser, novamente, um ano difícil. Nesse contexto, a nossa principal infraestrutura aeroportuária continuará a ser um péssimo cartão de visita para quem visita Portugal.

Tem garantia de que o Governo está a agir? Sente que estão a ser ouvidos?

Estamos a ser ouvidos. O reforço de agentes e a procura de soluções são respostas positivas, mas estamos num período de menor procura e ainda sob moratória. A minha preocupação é o que acontece a partir de 31 de março.

Estamos totalmente disponíveis para trabalhar com o Governo, partilhando informação que recolhemos diretamente junto dos clientes nos hotéis. Essa informação deve ser partilhada e usada para corrigir problemas. Temos insistido nisso junto da ministra da Administração Interna, através da Confederação do Turismo de Portugal.

Afirmou que “o Estado falha”. Falha em quê?

O aeroporto de Lisboa é um excelente exemplo do falhanço do Estado, não apenas deste Governo, mas dos sucessivos. Falha como concedente, ao não garantir que as condições da concessão são cumpridas; falha na segurança e no controlo de acessos; e falha, sobretudo, na salvaguarda da imagem do país. Porque, repare, eu posso fazer — e estamos a fazer —, todos os empreendedores estão a fazer investimentos importantíssimos no nosso país, em resultado do clima de confiança que a nossa atividade económica introduziu. Mas há aqui, de facto, uma desilusão: se, logo na porta de entrada, a experiência que o cliente tem é desta natureza, então significa que quem tem a responsabilidade de assegurar essa imagem está a falhar.

“O aeroporto de Lisboa é um excelente exemplo do falhanço do Estado, não apenas deste Governo, mas dos sucessivos. Falha como concedente, ao não garantir que as condições da concessão são cumpridas; falha na segurança e no controlo de acessos; e falha, sobretudo, na salvaguarda da imagem do país”.

2026

Disse que os próximos cinco anos vão ser os mais desafiantes. O setor está preparado para deixar de crescer sem entrar em pânico?

Nós vivemos tempos muito positivos no pós-Covid. Até o próprio Covid foi uma situação completamente nova para todos nós: hotéis encerrados, pessoas em casa, clientes nos destinos e nas origens. Mas, no pós-Covid, recuperámos muito mais rapidamente do que esperávamos.

Estamos agora numa fase que é tipicamente uma fase de planalto, em que os números vão começar a consolidar-se — em algumas regiões um pouco mais, noutras um pouco menos —, e temos de nos preparar para isso.

O que acontece é que toda a nossa cadeia de valor, toda a cadeia de despesa, também tem de se ir acomodando. Ou seja, como é evidente, eu sou muito partidário — e desde que sou presidente da Associação da Hotelaria de Portugal, e mesmo antes, quando estava na Hotelaria de Portugal — da revisão do contrato coletivo de trabalho com o SITESE, nomeadamente nas questões remuneratórias e nas condições salariais.

Mas aquilo que sinto é que vamos entrar numa fase em que tudo isto vai ter de começar a ser repensado. Todos os serviços que são fundamentais ao normal funcionamento de um hotel, ou toda a cadeia de valor do setor do turismo, vão ter de se acomodar. Porquê? Porque, do ponto de vista da receita, vamos entrar num período diferente daquele a que assistimos nos últimos anos do pós-Covid.

“Estamos agora numa fase que é tipicamente uma fase de planalto, em que os números vão começar a consolidar-se — em algumas regiões um pouco mais, noutras um pouco menos —, e temos de nos preparar para isso”

Mas a hotelaria, enquanto setor, está nesse estado de maturidade, de perceber que não se pode crescer sempre a estes ritmos?

Nós temos demonstrado, ao longo de muitos anos, capacidade de adaptação. E vamos voltar a fazê-lo. O meu papel, enquanto responsável da Associação da Hotelaria de Portugal, é alertar para períodos que não terão o fulgor que tivemos até agora, por uma razão simples: não estamos sozinhos no mundo.

Há um conjunto de destinos, à escala global, que se reposicionaram e que são muito competitivos do ponto de vista das condições de acesso. Isto não é novo. Há 20 anos, e antes das Primaveras Árabes, Portugal sofreu forte concorrência de destinos como a Turquia, a Tunísia e o Egito. Assistimos também à grande operação turística tradicional a redirecionar a oferta aérea para esses destinos, em detrimento de Portugal.

Hoje vemos um fenómeno semelhante, nomeadamente no Algarve e na Madeira, com a operação turística tradicional a canalizar transporte aéreo para outros destinos e a manter a relação com Portugal através da compra de allotments em companhias low cost. Ou seja, o risco do transporte aéreo passa para outro operador.

No fim do dia, podemos perguntar qual é o grau de compromisso desses operadores com Portugal. Eventualmente diminui. É um sinal e, sobretudo, um aviso para nos mantermos competitivos.

Relativamente ao preço, é expectável que baixe?

Depende de unidade para unidade. Projetos bem financiados têm uma almofada que lhes permite manter preços, baixar ocupação e degradar ligeiramente o RevPAR, mas aguentar. Há outras unidades com estruturas financeiras mais frágeis que têm de atuar mais rapidamente, porque têm credores — nomeadamente financeiros — que as obrigam a reposicionar-se em termos de competitividade e preço.

Olhando para 2026 e para os desafios que podem condicionar a atividade, falámos do aeroporto; falemos agora da geopolítica. Qual é o seu grau de confiança para 2026?

O turismo depende muito das condições de segurança à escala global. Temos hoje duas situações inequívocas: o que se passa em Gaza e o que se passa na Ucrânia, crises que tardam em resolver-se, apesar dos esforços diplomáticos.

Mas temos outras ameaças. A situação recente da Gronelândia reflete uma violação quase primária do direito internacional, com a intenção do presidente Trump de comprar aquele território, esquecendo que, no quadro da NATO — uma aliança defensiva —, as decisões devem ser tomadas colegialmente.

Isto afeta o turismo porque cria uma perceção de insegurança à escala global, e isso não é positivo para o setor. Ainda assim, o pós-Covid gerou um sentimento muito claro de que viajar é bom, fazer turismo é bom. Obviamente, isso é melhor conseguido com condições de paz e tranquilidade.

Portugal tem apostado na diversificação de mercados, nomeadamente no mercado norte-americano. Estes conflitos podem afetar essa procura?

O mercado norte-americano é hoje extremamente importante para Portugal, com uma expressão fortíssima em Lisboa e no Porto. Houve um aumento expressivo da oferta aérea, com cinco companhias a operar ligações quase diárias entre os Estados Unidos e Portugal.

Felizmente, o turismo não é diretamente afetado pelas tarifas do presidente Trump, porque é uma prestação de serviços. Mas temos de estar atentos aos fatores fundamentais: a experiência no aeroporto, a experiência do cliente. São esses aspetos que nos convocam a estar muito atentos.

Mão de obra

Falemos então da mão de obra. Qual é o ponto de situação?

O ponto de situação é o ponto de situação de sempre: já não nos bastamos a nós próprios. Temos, cada vez mais, de ter pessoas de outras nacionalidades a fazer carreira e vida em Portugal. Temos também de assumir a nossa responsabilidade de nos constituirmos como uma verdadeira comunidade de acolhimento. Para quê? Para que, no final do dia, uma vez que o turismo é uma prestação de serviços, essa prestação possa ser feita com a maior competência possível.

Os hoteleiros estão muito disponíveis — e já o fazem —, investem em formação, dão competências. Agora, entendemos que tivemos de regular, tivemos de controlar estes surtos migratórios, mas sem esquecer o fundamental: nós precisamos destas pessoas.

Os exemplos estão à vista. Itália, que foi um dos países que mais limitou os movimentos migratórios, já reviu essa posição. O presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, anunciou recentemente a regularização imediata de cerca de meio milhão de pessoas que se encontravam numa situação precária. E porquê? Porque precisam destas pessoas. E Portugal precisa destas pessoas na agricultura, no turismo, na saúde.

Aquilo que nós dizemos é o seguinte: tivemos uma fase de controlo, de perceber como regularizar situações pendentes e de ser mais exigentes na entrada de novas pessoas. Mas chegámos a este ponto e continuamos a precisar de pessoas para trabalhar. O turismo é uma atividade intensiva em mão de obra e precisa destas pessoas.

A declaração de interesses foi repensada, mas é fundamental termos outro instrumento que nos permita responder afirmativamente a estas necessidades. Estamos disponíveis para assumir a nossa responsabilidade. A Via Verde, pelo que sei, não teve até agora qualquer concretização, porque faz depender — nomeadamente na questão da habitação — responsabilidades que os agentes do setor do turismo não podem assumir.

Não podemos ficar no meio da ponte. O Governo tem de encontrar uma solução para que esta dinâmica, que tem sido tão positiva para a economia portuguesa, possa continuar. Defendemos partir da manifestação de interesse, corrigindo aquilo que deve ser corrigido, no sentido de garantir melhores e mais seguras condições de acesso. Devemos olhar para um bloco tão importante como os países de língua oficial portuguesa, eventualmente num quadro de discriminação positiva.

O que é importante é passar esta mensagem: esta dinâmica não pode ser interrompida. Se queremos continuar a crescer — e crescer acima da média da União Europeia — com uma impressão digital chamada turismo, precisamos de pessoas. O Governo tem de arrepiar caminho e trabalharmos em conjunto.

Imigração: “esta dinâmica não pode ser interrompida. Se queremos continuar a crescer — e crescer acima da média da União Europeia — com uma impressão digital chamada turismo, precisamos de pessoas. O Governo tem de arrepiar caminho e trabalharmos em conjunto”

Privatização da TAP

Saudou a abertura do capital da TAP a privados, mantendo o Estado 50,1% e salvaguardando o hub. Agora que se conhecem os interessados, qual é a sua principal preocupação?

A minha preocupação é conhecer melhor os interessados e as propostas apresentadas. O essencial está claro: a salvaguarda da centralidade em Portugal.

A TAP precisa de capital e esse capital pode vir de um parceiro com experiência no setor aeronáutico, trazendo não só financiamento, mas também know-how. Isso valoriza a companhia, desde que se salvaguarde a centralidade em Portugal, o respeito pelas regiões autónomas, pela diáspora e pelo setor do turismo.

Tem opinião sobre os três candidatos?

São três grupos consolidados. Confio na comissão de avaliação para escolher a melhor proposta em função do interesse nacional: uma proposta financeiramente sólida, que garanta a centralidade em Portugal, a ligação ao mundo e o desenvolvimento de novos mercados.

Taxas Turísticas

A Câmara do Porto quer financiar transportes gratuitos para residentes com o aumento da taxa turística. Faz sentido?

Não faz sentido. A taxa turística, enquanto conceito, pressupõe uma contraprestação. Ou seja, tem de ter um objetivo concreto, e a taxa turística deve servir para investimentos que sejam absolutamente estruturantes para a atividade turística.

Aceito, por exemplo, que seja utilizada para financiar a higiene urbana, porque responde à pegada deixada também pelo turismo. Isso acontece em Lisboa e poderia perfeitamente acontecer noutros municípios do país, nomeadamente no Porto. Certamente que o Porto encontrará outras fontes de financiamento para cumprir essa medida eleitoral. Não concordo que seja via taxa turística, porque a taxa turística serve fundamentalmente para financiar investimentos que interessam ao setor do turismo.

No Porto há ainda um outro problema, que tem a ver com o modelo de governação da taxa. Enquanto em Lisboa os empresários e as associações participam no comité de decisão da taxa turística, no Porto isso não acontece. E a minha expectativa — direi isso no Congresso — é que o modelo de governação do Porto possa evoluir para aquilo que existe em Lisboa, ou seja, para a participação dos agentes económicos na decisão sobre a utilização da receita da taxa.

A decisão é má porque desvirtua o princípio da taxa turística: uma receita entregue pelo turista deve financiar investimentos que interessem ao turismo. E, simultaneamente, a governação será, do meu ponto de vista, mais bem-sucedida se tiver a participação de quem contacta diretamente com o setor.

Financiar transportes com taxa turística? Não concordo que seja via taxa turística, porque a taxa turística serve fundamentalmente para financiar investimentos que interessam ao setor do turismo.

Vai aproveitar o Congresso da AHP, no Porto, para passar essa mensagem à autarquia?

O Congresso do Porto representa um regresso da AHP ao Porto mais de 20 anos depois. Sei que foi em 2005, quando eu era secretário de Estado do Turismo e o presidente da AHP era Luís Alves de Sousa, e realizámos o Congresso no Sheraton, se a memória não me falha.

Quisemos regressar ao Porto porque é um destino turístico e uma região que se têm vindo a afirmar de forma muito clara. Quero também saudar o trabalho de toda a estrutura da Entidade Regional de Turismo do Porto e Norte, liderada por Luís Pedro Martins, bem como o trabalho dos autarcas da região. Esse percurso tem sido absolutamente meritório e é uma história que merece ser contada.

É isso que faremos no primeiro dia do congresso, dando espaço para que o tema da região Porto e Norte seja tratado. E, respondendo diretamente à sua pergunta, sim, vamos aproveitar esta oportunidade para chamar a atenção para um conjunto de aspetos, nomeadamente este aspeto local, que tem tradução e importância nacional, sobretudo numa altura em que a cidade do Porto tem vindo a ganhar um espaço muito relevante, com importantes investimentos hoteleiros e a atração de muita expertise hoteleira para a cidade. É, também, um exercício de humildade poder contar com estes parceiros.

Há mais alguma mensagem que considere importante passar no congresso?

Há um aspeto que para mim é muito importante. Os números são inexoráveis: o contributo do turismo para a economia, para o emprego, para as exportações e para a coesão económica e social do país é claro. O turismo está hoje muito presente. Mas há um tema que considero muito importante. Quero continuar este debate com as pessoas que, muitas vezes de forma preconceituosa, maldosa, noutras com razão, sentem ainda uma ameaça na atividade turística. Enquanto houver pessoas que se ressentem dos impactos do turismo, devemos continuar este debate, explicando o nosso propósito.

Esse propósito pode ser mais bem explicado se implementarmos uma medida de que falamos há muito tempo: todos os investimentos financiados pela taxa turística devem ter um selo visível a indicar isso mesmo. Não apenas museus, mas também equipamentos simples de higiene urbana. Quando um residente vê, por exemplo, um equipamento de limpeza numa rua da sua freguesia e percebe que foi financiado pela taxa turística, começa a olhar de outra forma para o impacto do turismo. Isso não resolve todos os problemas, mas mitiga a perceção. E esse é um caminho que Portugal tem de continuar a fazer.

O estudo recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos mostra que 70% dos portugueses querem turismo, mas com limites e regras claras. O setor está preparado para ouvir esta mensagem ou continua a falar apenas para dentro?

O setor tem de estar disponível para ouvir, porque este é um debate de futuro. Se o turismo quer continuar a ser líder no crescimento económico, tem de perceber que a sua atividade está profundamente ligada ao território e às pessoas que cá vivem, aos residentes, aos portugueses. Este diálogo tem de continuar.

Sou positivo desse ponto de vista. Acho que o setor hoteleiro se tem vindo a preparar. A prova disso foi, por exemplo, o testemunho dos presidentes das juntas de freguesia de Lisboa, quando aumentou a taxa turística. Reconheceram de forma muito clara o contributo que a hotelaria deu para a salvaguarda do interesse coletivo.

A AHP vai realizar, entre 11 e 13 de fevereiro, o seu congresso anual sob o mote “Wake up Call: Despertar para a Mudança”,  este congresso é para tranquilizar o setor ou para o acordar?

É claramente para o acordar. No pós-Covid vivemos anos de grande fulgor, de entusiasmo nos números, no investimento e na perceção de Portugal no mundo, bem como no alargamento de mercados.

Vamos agora viver um tempo diferente, um tempo de planalto, que exige que todos os agentes estejam atentos e disponíveis para falar internamente com os portugueses, mas também com quem nos visita e com quem é responsável por trazer pessoas a Portugal.

Nesse sentido, não só temos de melhorar a nossa prestação interna, dentro dos hotéis, como temos de ser muito ativos nos temas estruturais que nos preocupam — desde as questões aeroportuárias à mão de obra. São temas decisivos para que o turismo continue a cumprir o seu papel em Portugal.

Quem é que está mais curioso para ouvir no Congresso?

Tivemos o cuidado de construir um programa equilibrado entre oradores nacionais e internacionais. Entre pessoas que trazem as questões da geopolítica e, simultaneamente, a relação que hoje o hoteleiro tem com o cliente, numa lógica cada vez mais atual e moderna.

Incluímos também o uso da inteligência artificial, não para substituir a relação humana, mas para libertar tempo e permitir que essa relação seja mais qualificada, mais competente e mais próxima. É um programa que procura preparar o setor para o futuro e dar boas razões para que as pessoas regressem ao congresso.

in TNews, por Carina Monteiro

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