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Falta mão de obra. E os salários?

O turismo continua empregador, e com a oferta de empregos a ultrapassar largamente a procura. Numa altura em que enfrenta um "défice enorme" de mão de obra, e conservar os recursos humanos se tornou crítico para as empresas, as associações turísticas defendem que chegou a hora de mudar da imagem de um sector com trabalho pouco qualificado e mal pago, antecipando a tendência para melhorias salariais em 2019.  
 
"Há neste momento margem para subir os salários para sustentar o crescimento que estamos a ter, já tem havido aumentos no sector e deverão continuar", sustenta Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo Português (CTP). "Como o turismo continua a precisar de pessoas, isto tende a empurrar os salários para valores mais altos. É a lei económica mais velha que conheço, a da oferta e da procura."  
 
Segundo o presidente da CTP, "é preciso não esquecer que há seis anos Portugal tinha uma das mais altas taxas de desemprego da Europa, de 17%, e agora estamos com 6%, que é quase pleno emprego. E o grande contribuidor para a baixa do desemprego foi, sem dúvida, o turismo, houve anos em que criámos 30 mil a 40 mil postos de trabalho". O reverso tem sido as dificuldades das empresas em recrutar trabalhadores. "Na última Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) ofereceram- -se 10 mil empregos, e nem um quarto ficou satisfeito", nota Francisco Calheiros, frisando que "embora de forma mais moderada que em anos anteriores de maior crescimento, o sector vai continuar a precisar de pessoas".  
 
5500 novos quartos de hotel a precisar de trabalhadores em 2019  
 
A Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) dá conta de uma "falta geral de recursos humanos que está a atingir todos os níveis da operação dos hotéis", o que inclui um vasto conjunto de funções, desde empregados de mesa, pessoal de receção e serviço de quartos, até bagageiros, concierges e limpadores de piscinas, além de colaboradores para assegurar as atividades de animação ou nos spa.  
 
E com a perspetiva da AHP de abrirem 65 hotéis em Portugal em 2019, totalizando 5500 novos quartos (apesar de parte dos projetos não se concretizar na data prevista), a carência de trabalhadores tende a agudizar-se.  
 
"Muitos dos anúncios de emprego colocados ficam desertos. Há escassez de recursos humanos na hotelaria, e todos os sectores da economia se queixam do mesmo - nós mais, porque crescemos mais do que os outros, com todas estas aberturas de hotéis e a nova oferta que está a surgir", avança fonte oficial da associação hoteleira, referindo que a maior empregabilidade "tem levado a uma pressão para cima sobre a massa salarial no sector, e com a escassez de mão de obra a continuar, é natural que haja lugar a aumentos em 2019".  
 
No alojamento e restauração, o salário médio líquido dos trabalhadores foi de €654 em 2018, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE). Ressalvando que "o alojamento paga em regra mais do que a restauração, que puxa as contas para baixo", a AHP avança que o salário médio mensal bruto praticado pelos hotéis que são seus associados foi no ano passado de €1141, um valor que não inclui subsídio de refeição ou prémios de carácter não-regular.  
 
"Os trabalhadores do turismo precisam de ser bem remunerados, mas o debate sobre a forma como se pode melhorar o mercado de trabalho não se deve centrar só nos salários", defende Ana Jacinto, secretária- -geral da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP). "É um sector difícil de entender, porque o trabalhador fica agarrado à empresa muitas horas consecutivas, à noite ou em feriados, e por mais salário que se meta em cima, é sempre penoso. Mais do que a matéria salarial, é no ajustamento dos tempos de trabalho que tem de haver uma grande reflexão".  
 
A AHRESP alega fazer "um esforço anual para atualização dos salários", e que estes são negociados com as centrais sindicais UGT e CGTP no âmbito da contratação coletiva. Os aumentos médios negociados com os sindicatos foram de 3,6% ao ano em 2018 e 2019, frisando a associação que "em regra, as empresas pagam acima dos mínimos das tabelas de remuneração", e que a subida de nível em várias categorias profissionais no sector tem levado a valores superiores à média global. "Os dados do INE só consideram os valores-base, mas depois temos de acrescentar o trabalho à noite ou em feriados, que provêm do esforço do trabalhador mas refletem-se nos salários", nota Ana Jacinto. A falta de mão-de-obra também é enfatizada pela AHRESP, que no ano passado diagnosticou que o sector precisava de 40 mil postos de trabalho.  
 
Mais 40% empregos desde 2016  
 
"Uma das mudanças estruturais que o turismo tem tido é a capacidade de gerar emprego todo o ano, deixando de ter fortes oscilações entre a tradicional época alta e a baixa", destaca Ana Mendes Godinho, secretária de Estado do Turismo, lembrando que a reposição do IVA na restauração em 2015 trouxe aqui um salto, e "depois de terem diminuído 10% entre 2011 e 2015, os postos de trabalho no turismo aumentaram quase 40% desde 2016".  
 
Segundo a Secretaria de Estado do Turismo, o número de pessoas a trabalhar no sector passou de 280 mil em fevereiro de 2015 para 386 mil no mês homólogo de 2019, resultando num saldo de 106 mil novos postos de trabalho nos últimos quatro anos.  
 
São dados que diferem dos divulgados pelo INE, que apenas consideram alojamento e restauração, quando aqui se alargam também a agências de viagens ou rent-a-car.  
 
"Com a folga do IVA, absorvemos os postos de trabalho que tínhamos destruído em anos anteriores, e hoje temos empresas que não conseguem abrir os estabelecimentos por falta de mão de obra", faz notar a secretária-geral da AHRESP, referindo que de 2015 a 2017 o canal Horeca criou 64,6 mil postos de trabalho. "Houve um salto qualitativo nos chefes de cozinha, mas há profissões neste sector que continuam pouco dignificadas", lembra Ana Jacinto. "Nesta altura em que o turismo continua a crescer, e com os desafios que se avizinham, é tempo de refletir porque é que trabalhar no sector não é tão atrativo."  

in Expresso, por Conceição Antunes

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