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Fátima prevê voltar a falhar o 13 de maio e lança 'vouchers' a oferecer noites em hotéis para não continuar um deserto

A partir de abril, com o país a desconfinar, a câmara de Ourém está a oferecer a segunda noite a quem reservar a primeira, dando ainda um vale de 10 euros para gastar em restaurantes locais. Fátima é o destino do país que mais sofre com a pandemia

Não será este ano que as celebrações de 13 de maio voltam a trazer as habituais multidões de 100 mil a 200 mil peregrinos ao santuário de Fátima - ou, pelo menos, não é com isso que contam os hoteleiros da região, que estão a sofrer a maior crise de sempre devido à pandemia de covid-19.

A câmara de Ourém tomou a iniciativa inédita de lançar um sistema de 'vouchers' oferecendo a segunda noite a quem fizer uma reserva em hotéis da cidade a partir de abril, quando o país previsivelmente estará a desconfinar, e além disso dá ainda um vale de 10 euros para descontar em despesas feitas em restaurantes na região.

"É uma esperança, que representa o esforço grande de uma pequena câmara, e acima de tudo é um sinal forte que se dá ao país num momento em que a hotelaria está desesperada", considera Alexandre Marto, que lidera um grupo que representa dez hotéis, o Fátima Hotels, e que é vice-presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP).

Alexandre Marto lembra que a oferta da câmara envolve 10 mil noites - num destino que costumava ter um milhão de noites vendidas. "Não vai salvar o turismo, mas é uma ajuda, quando os municípios estão a fazer tão pouco para ajudar as empresas de turismo. Não ouvi falar de nada disto, por exemplo, no Algarve", refere.

“Se houvesse uma guerra, o resultado dos hotéis não seria pior”

De momento, "Fátima é uma cidade deserta, a maioria dos hotéis estão encerrados, e as pessoas, mesmo querendo, não podem vir até cá. Qualquer dia, está numa situação muito grave, não diria desastrosa, porque já é", nota o hoteleiro.

"Uma pessoa que chegue hoje a um hotel para fins de lazer ou religiosos é um criminoso, porque não se pode passar de município para município, a que se soma o facto da parte internacional ter colapsado, porque as fronteiras estão fechadas", lembra ainda Alexandre Marto.

Fátima é o primeiro destino português mais abalado com a pandemia, com uma quebra nos hotéis de 78% ao longo do ano passado, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). Embora o santuário tenha adotado medidas sanitárias e de distanciamento, o destino vive por excelência de peregrinações religiosas que inevitavelmente geram aglomerados - o que era visto como uma força em termos turísticos, mas passou a ser um 'handicap' devido ao surto.

"Se houvesse uma guerra com tropas na rua e revoluções, a hotelaria não tinha piores resultados", salienta Alexandre Marto.

Reconhecendo que os hotéis devem fechar ou ficar mais condicionados nas atuais circunstâncias sanitárias, o hoteleiro de Fátima defende que "a solução para Portugal tem de ser a de capitalizar as empresas como se estivéssemos numa situação de guerra, porque isto é mesmo uma situação similar à de uma guerra".

Os empréstimos ao sector têm de ser "a muito longo prazo, e não as moratoriazinhas de meses", sublinha Alexandre Marto. "Têm de ser empréstimos de guerra. Nós pagamos milhares de euros de IMI de edifícios que não são produtivos, e os hotéis, além da tesouraria, têm problemas de amortização do prejuízo para resolver".

Relativamente às celebrações de 13 de maio - que já em 2020 foram canceladas por causa da pandemia - Alexandre Marto prevê que o santuário, "que tem sido muito cauteloso", adote uma posição similar à de 2020, em que passou as celebrações para 13 de outubro, com menos gente, e distanciamento assegurado através de círculos no chão.

"Fátima vai ter um verão calamitoso, não há nada a fazer", salienta o hoteleiro, lembrando que o destino vive sobretudo de viagens organizadas, e a operação turística fica sem tempo para montar os programas. "Como o verão está perdido, a nossa expectativa é que em outubro já haja alguma normalidade, até com os planos de vacinação, se não for assim, o desastre é total".

Alexandre Marto destaca a "inoperância dos governos" e a falta de definição que está a haver a nível europeu relativamente à reabertura de fronteiras. Lembra que há países, como os EUA, "onde a percentagem de população vacinada vai aumentar brutalmente, e os governos ainda não dizem como as coisas vão funcionar".

"Quem pode entrar no país? As pessoas que foram vacinadas? As que já estão imunizadas? As que fizeram teste PCR? É importante definir isso para os operadores se poderem organizar", adverte.

"Estamos a acompanhar a situação de Israel, com quem a Grécia está a fazer acordos, além do Reino Unido, por causa do 'passaporte verde'. Portugal, não sei o que está a fazer. "E já não é 2021 que está em risco, é 2022, porque a operação turística demora tempo a montar", conclui.

in Expresso, por Conceição Antunes

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