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Hotéis em agonia pedem ajuda urgente

Mais de 70% estão de portas fechadas, com as receitas a zero, e já sem meios para pagar custos fixos de água, luz ou seguros: é este o “panorama péssimo” dos hotéis com a paralisação da covid-19 segundo Raul Martins, presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) — que esta semana apresentou ao Governo um conjunto de medidas para o sector conseguir resistir ao efeito prolongado da pandemia.

“Chegámos a um pacote, ao qual chamámos SOS Hotelaria, porque de facto estamos em SOS”, frisa Raul Martins.“Convoquei todos os órgãos sociais da AHP, desde a direção à assembleia-geral, fizemos uma reunião onde todos apresentaram propostas sobre ações a tomar, e foi com esta força associativa que alinhámos uma série de medidas essenciais no curto e no médio prazo.”

Para os hotéis, em janeiro deste ano “houve uma grande descompressão com o apoio no pagamento dos ordenados, pois o primeiro objetivo das empresas é poderem pagar aos seus trabalhadores, e neste momento o pessoal que está em casa sem trabalho recebe a 100%”, refere o presidente da AHP. “Foi um alívio grande, mas decorreu em consonância com o Orçamento do Estado, as medidas anunciadas pelo Governo a 18 de janeiro não tiveram em conta o impacto da terceira vaga da pandemia.”

“De momento as empresas hoteleiras têm apoio para pagar salários, mas não têm para pagar custos fixos que os hotéis têm, mesmo estando fechados, como taxas de água, eletricidade ou seguros”, exemplifica. “A hotelaria tem custos fixos de €100 milhões por mês. Significa que precisamos de uma linha de tesouraria de €600 milhões para nos aguentarmos seis meses nesta terceira vaga.”

A AHP propôs aqui ao Governo linhas específicas para a hotelaria. “Houve apoios para empresas exportadoras, a linha anunciada de €1000 milhões, que acabou por incluir o turismo por insistência da confederação. Mas o turismo quando chegou já estava tudo tomado pelas exportadoras, os três maiores bancos ao terceiro dia já não tinham disponibilidade”, salienta o presidente da associação.

Acresce-se que os hotéis grandes, os que mais se ressentem com a pandemia, continuam obrigados a pagar Taxa Social Única (TSU), tal como outras empresas de maior dimensão, e a AHP defende que devem estar isentos devido à gravidade com que estão a ser afetados pela surto.

“Já há vários hotéis, do norte do país ao Algarve, que têm salários em atraso porque não têm dinheiro para pagar a TSU. E se não conseguem pagar a TSU, a Segurança Social não paga os ordenados e no mês seguinte já não têm apoios, porque existe a obrigação de ter os impostos em dia. É um círculo vicioso porque as grandes empresas se não têm receitas, não têm meios para pagar custos fixos, em especial a TSU”, sustenta Raul Martins, frisando que na visão do Governo imperou “um modelo industrial, mas os hotéis são diferentes das fábricas, não podem estar abertos uma semana e depois na outra decidir não estar, porque têm clientes em contínuo, mesmo sendo poucos”.

As moratórias são outra prioridade no pacote de medidas de SOS proposto pela AHP ao Governo, que apela aqui a uma prorrogação dos prazos por mais três anos, pelo menos. “Precisamos de 2022 e 2023 para pagar os empréstimos que houve para a tesouraria, e só depois começamos a poder pagar os empréstimos de longo prazo, que têm de ter uma moratória que passe para 2024. Se as moratórias forem por um período pequeno, não adianta”, nota o presidente da associação hoteleira, lembrando que os empréstimos covid entram a breve trecho no período de carência e vão começar a ter de ser pagos, mas as empresas hoteleiras não têm condições.

“Lisboa e Porto têm de criar vouchers como fez a Califórnia”

“Se as moratórias não forem prorrogadas, os hotéis entram em incumprimento, e depois vão à falência”, adverte Raul Martins. Até à data não há sinal de muitas falências no sector, por serem “processos que demoram tempo até se executar, mas o que já se nota neste momento é muitos hotéis à venda, especialmente no Algarve”.

Para o presidente da AHP, “se 2021 for um ano que dê zero, já é muito bom”. E explicita que “supondo que a partir de junho temos uma ocupação média de 50%, que corresponde a 25% do ano — o que dá zero porque o break even anda nos 25% — isso já seria bom nas atuais circunstâncias, agora, não dá é para pagar um tostão de dívida de tesouraria”.

Outra proposta da AHP passa por criar ofertas para atrair turistas às cidades na altura em que o turismo reabrir, prevendo o efeito de baixa de preços por procura reduzida. “As cidades sofreram mais com a pandemia, e no próximo recomeço também vai ser assim, as pessoas vão querer ir para sítios mais desafogados, para o campo e onde há menos aglomerações”, antecipa Raul Martins, defendendo que “para a reabertura, as cidades têm de criar vantagens e melhores condições para atrair turistas, e Lisboa e Porto devem criar vouchers como se faz na Califórnia ou na Sicília”. Segundo Raul Martins, o voucher poderia ser no valor de €50 (na Califórnia é de 100 dólares), e o projeto deve ser assumido pelas câmaras de Lisboa e do Porto “que têm as receitas das taxas turísticas e devem usá-las para este fim”.

O presidente da AHP concorda que nesta fase tem de haver confinamento em Portugal por razões de força maior. “Nós, hoteleiros, temos consciência de que a situação sanitária do país é complexa, e só há uma hipótese que é fechar tudo”, frisa Raul Martins. “Até ao fim de março o confinamento vai manter-se, seguramente, e só podemos ir abrindo à medida que tivermos mais gente vacinada. A abertura do turismo será gradual, e há de estar relacionada com a vacinação.”

De acordo com o responsável, “podemos prever que só no final de agosto, em que se diz que 70% da população ficam vacinados, a situação fique aberta e mais normalizada”.

“E os ativos de valor, como os hotéis, têm de ser mantidos. Sabemos que vamos precisar de empréstimos à tesouraria, que demoram mais tempo a pagar, mas que terão o seu real valor quando o turismo voltar”, conclui Raul Martins. “E não tenho dúvidas de que, apesar de estarmos com algum atraso, o turismo voltará a ser o motor da retoma da economia portuguesa.”

AHP PROPÕE AO GOVERNO NOVO PACOTE ANTICOVID

► Criação de linhas de crédito específicas para a hotelaria, para cobrir custos fixos que os hotéis têm de manter mesmo estando fechados, como taxas de água, de eletricidade, seguros, manutenção, vigilância, entre outras

► Alargamento das moratórias das linhas covid e outros créditos bancários (cujo período de carência termina em setembro de 2021) por mais três anos, pelo menos, e com início de amortização em 2024 a taxas de juro “reduzidas e estáveis, tendencialmente a 0%”

► Isenção de pagamento da taxa social única (TSU) sobre todos os trabalhadores em lay-off para hotéis com quebras de faturação de mais de 75% e suspensão de pagamento da TSU durante um ano em relação aos trabalhadores que voltarem à efetividade das suas funções ou que venham a ser contratados na reabertura do turismo

► A possibilidade de os portugueses deduzirem o IVA de despesas relacionadas com turismo e lazer, em 2021/2022, na declaração de IRS entregue nos anos seguintes

► Isenção de taxas e impostos municipais para os hotéis durante um ano

► Programa de testes rápidos gratuitos em todos os aeroportos nacionais, portos ou estações de comboios à chegada ao país

► Entradas gratuitas em museus e outras atrações durante dois anos

Clique neste link para ler a entrevista na íntegra.

in Expresso, por Conceição Antunes
Fotografias: Tiago Miranda

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