Portugueses superam estrangeiros 43 anos depois
De acordo com o INE, os portugueses foram responsáveis por 13,6 milhões de dormidas em 2020 e os mercados externos por 12,3 milhões
Portugueses superam estrangeiros em dormidas pela primeira vez desde 1978
No ano passado houve uma queda superior a 60% em hóspedes e dormidas, de acordo com os dados divulgados pelo INE
Os alojamentos turísticos registaram 10,5 milhões de hóspedes e 26 milhões de dormidas no ano passado, o que representa quedas de 61,2% e de 63% face a 2019, respectivamente, causadas pelo efeito da pandemia de covid19. De acordo com a estimativa rápida publicada ontem pelo INE, é preciso recuar a 1993 para se encontrar um número de dormidas mais reduzido (23,6 milhões). Olhando para o número de hóspedes, o recuo é até 2003, com 10,4 milhões, de acordo com a série histórica do INE.
Os números do ano passado, que começaram a cair em Março (depois de um ciclo de vários anos de crescimento), só não foram piores porque o mercado interno não caiu tanto como o mercado externo. De acordo com os dados do INE, os portugueses foram responsáveis por 13,6 milhões de dormidas (-35,3%) e os mercados externos por 12,3 milhões de dormidas (-74,9%). É primeira vez, desde 1978, que os portugueses superam os estrangeiros neste indicador.
Nesse ano, segundo o INE, os estrangeiros representaram 48% do total de dormidas. Desde então, passaram a ser maioritários, com um peso da ordem dos 70% nos últimos anos, período em que o sector foi batendo novos recordes. Já em 2020, este indicador voltou a cair, com os não residentes a pesarem 47% no número global de dormidas.
No caso dos principais mercados externos, o Reino Unido foi o que teve a pior performance, com menos 78,5% de dormidas face a 2019, cabendo a Espanha a evolução menos negativa, mas que ainda assim foi de -65,9%. O Alentejo foi a região que melhor resistiu ao choque, com menos 37,3% de dormidas (para 1,84 milhões), cabendo as maiores quedas à Área Metropolitana de Lisboa, com -71,5% (para 5,3 milhões), e aos Açores, com -71,1% (para 659 mil).
Em Dezembro, 50% dos estabelecimentos encerraram ou não tiveram hóspedes. Aliado a medidas como o layoff simplificado, esta tem sido uma das formas de as empresas reagirem à queda da procura. Em 2019, estavam contabilizados 6833 estabelecimentos turísticos, o dobro do registado em 2013. Questionada sobre o anúncio de novas restrições, Cristina Siza Vieira, vice-presidente executiva da Associação de Hotéis de Portugal (AHP), fala de uma “preocupação crescente”. Para já, diz, “estas novas restrições impactam pouco, até porque mais de 80% dos hotéis estão encerrados” mas, e depois de perder o Carnaval e o Dia dos Namorados, “com a situação descontrolada da pandemia, o encerramento das fronteiras e as férias escolares mais reduzidas”, o sector também já deixou de contar com a Páscoa.
Assim, afirma, “os dois habituais ‘balões de oxigénio' da hotelaria do primeiro quadrimestre estão perdidos”. “Nestas circunstâncias”, refere “com a hotelaria encerrada e a pouca que está aberta na prática a desempenhar um verdadeiro serviço público”, estas empresas “devem ter acesso ao layoff simplificado e à isenção do pagamento da taxa social única e de encargos fixos com os estabelecimentos”. “É fundamental reduzir os custos das empresas e manter os postos de trabalho”, sublinha. Eduardo Miranda, presidente da Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP), refere que a evolução da pandemia “está a ir ao encontro dos piores cenários” imaginados no ano passado. Este domingo, a TAP anunciou que, devido às novas restrições, a redução da oferta em Fevereiro vai ser da ordem dos 93% face a idêntico período de 2020.
Apesar de considerar que os novos apoios trazem “um alívio importante”, realça que “há muitos segmentos fragilizados que ficam de fora ou a resposta é muito limitada”, como os empresários em nome individual e alguns grupos de micro e pequenas empresas - o que é preciso ser corrigido “com urgência”. “No final do ano passado estimávamos que a operação da hotelaria poderia iniciar-se no final do primeiro trimestre e neste momento sabemos que isso não irá acontecer. Agora estamos a navegar à vista”, adianta Cristina Siza Vieira. E se o primeiro semestre vai ser diferente do esperado pela AHP, “ainda é cedo para perspectivar o que irá acontecer” na segunda metade, apesar de as pessoas “terem muita vontade de voltar a viajar”. Essa decisão “está dependente da aceleração do processo de vacinação”, nacional e internacional, destaca, considerando que este ano “as viagens serão sobretudo locais e regionais”, pelo que se está muito longe de se poder falar na “recuperação do turismo internacional”.
Do lado da ALEP, Eduardo Miranda constata que a projecção “de um início de recuperação significativa a partir da Páscoa já está posta de lado”. Olhando um pouco mais para a frente, destaca também a importância da vacinação, perspectivando que a retoma “antes imaginada para o Verão deve ser muito mais lenta”. Este ano, diz, pode ser “tão difícil para o turismo como foi 2020”.
Receitas afundam depois de vários anos a bater recordes
Os dados do INE sobre os proveitos totais do sector do alojamento turístico só serão conhecidos no próximo dia 15 deste mês. Mas, olhando para o acumulado até Novembro, estes foram de 1404 milhões de euros, menos 65,7% face a idêntico período de 2019. Já ao nível das exportações de serviços de viagens e turismo (ou seja, o dinheiro que entrou em Portugal devido aos turistas estrangeiros), contabilizadas pelo Banco de Portugal, verifica-se uma queda de 55,8% para 7679 milhões de euros nos primeiros 11 meses do ano.
O saldo entre exportações e importações continua a ser positivo, mas “encolheu” 61% para 4847 milhões de euros (com efeitos negativos ao nível do saldo do total da balança comercial). Em 2019, o turismo representou a entrada de 18.431 milhões de euros, mais 8% do que em 2018, atingindo assim mais um novo recorde e ajudando a manter a balança comercial positiva.
Olhando apenas para os alojamentos contabilizados pelo INE, em 2019 os proveitos totais aumentaram 7,3% para 4276,6 milhões.