MENU

LOGIN

Hotelaria tem necessidade de mão de obra operacional

A hotelaria nacional teve em 2017 o melhor ano de sempre. A taxa de ocupação dos hotéis cresceu cerca de 4%, o preço médio por quarto vendido na ordem dos 10% e o RevPar (preço médio por quarto disponível), indicador que mede a rentabilidade, cerca de 15% - revela à "Vida Económica" Cristina Siza Vieira, presidente executiva da AHP – Associação Hotelaria de Portugal. No entanto, existe um problema de fundo: "A hotelaria precisa de colaboradores para funções mais operacionais, como empregados de andares, de copa, receção", uma "mão de obra efetiva que não é exclusivamente formada nas escolas de hotelaria".  
 
Vida Económica – os principais vetores da atividade que motivaram o excelente resultado obtido em 2017?  
 
Cristina Siza Vieira - Segundo o AHP Tourism Monitors, ferramenta que recolhe e trata dados relativos à operação hoteleira, por destinos turísticos e categorias, a hotelaria nacional teve em 2017 o melhor ano de sempre, desde que fazemos a monitorização (2004). Fechámos o ano 2017 com todos os indicadores em alta, com destaque para os três principais indicadores: a taxa de ocupação dos hotéis cresceu cerca de 4%, o preço médio por quarto vendido na ordem dos 10% e o RevPar (preço médio por quarto disponível), indicador que mede a rentabilidade, cerca de 15%.  
 
VE - Podemos considerar que este aumento de oferta é sustentável e garantido pela procura prevista?  
 
CSV - O perfil e o aumento da procura são sinais de que há capacidade para crescer. O que os dados demonstram é que nestes 10 anos houve um crescimento médio anual da oferta na ordem dos 7%, mas também a taxa de ocupação medida pelas noites vendidas cresceu 6%.  
 
Do ponto de vista do investimento, há sinais muito interessantes no crescimento da indústria e quem investe encontra espaço para isso. É aqui que nós insistimos na necessidade de monitorizar e acompanhar oferta e procura.  
 
VE - Está concretamente a referir-se à área do alojamento local?  
 
CSV - A área do alojamento local, como sabemos, é muito ampla, tem desde situações mais individuais a tradicionais, mas hoje está cada vez mais a transformar-se numa atividade empresarial. Há operadores importantes neste meio, como os "hostels" que são 508 de quase 55 mil registos no final de 2017, uma fatia ainda muito pequena, mas já com algum peso para oferta de cama "para- -hoteleira", digamos assim. É importante monitorizar esta oferta e a procura, pois ela está no mesmo mercado, o mercado de alojamento de turistas.  
 
VE – Contudo, neste cimento previsto da procura, quais os obstáculos a vencer?  
 
CSV - Claro que há condicionantes a este crescimento, uma delas é como os turistas cá chegam. As restrições que o presidente da AHP tem apresentado são uma questão importante, como o facto de a porta de acesso (aeroporto) estar congestionada. Na expetativa da AHP, 2018 não é um ano de abrandamento mas a partir daí já vai haver maior comedimento no investimento em hotelaria. O país é muito grande em termos turísticos e as 61 novas unidades mais as 23 em remodelação não são excessivas face a uma procura a crescer mais do que esta oferta.  
 
Mercado inglês representa 40% da quota de mercado no Algarve  
 
VE - Em temos de mercados emissores, como o Reino Unido, a Alemanha e a França, o que é necessário fazer junto destes mercados?  
 
CSV - O mercado inglês teve um abrandamento e está sob observação prudente. Não é só a questão do "Brexit", foi também a falência do Grupo Monarch no ano passado, que distribuía muito mercado inglês. O "Brexit" porque tem este efeito concreto, que é a desvalorização da libra face ao euro, enquanto o mercado do Algarve está a posicionar- -se, e bem, mais em preço.  
 
Há também um outro fenómeno que merece ser observado: alguns destinos que sofreram muito nos últimos anos, como a Tunísia, Turquia, Egipto a Grécia, estão a surgir de novo no mapa dos destinos turísticos com importância e não podemos esquecer que há operadores com ativos importantes nestes mercados para onde canalizam primeiro a procura e que competem em preço e em deslocações. Portanto, o mercado inglês, que representa 40% da quota de mercado no Algarve, é um mercado muito importante.  
 
VE - Onde se situam outros mercados emissores, como Brasil, EUA e China?  
 
CSV - O Brasil é também um mercado em crescimento no nosso país, e muito interessante no que respeita ao consumo. O mercado chinês e o norte-americano dependem sobretudo das parcerias com a TAP para esta ligação ponto a ponto. A oferta hoteleira tem capacidade de responder às necessidades e desafios através da formação.  
 
VE - Este crescimento da indústria hoteleira tem encontrado dificuldades em termos de recursos humanos?  
 
CSV - Temos muito bons profissionais, apesar de poucos. Há resposta por parte das escolas de hotelaria e da formação superior em hotelaria e turismo.  
 
O ponto mais crítico não é esse, pois estamos muito bem a nível de diretores de hotéis, operações, food & beverage, marketing digital. O outro ponto é que a hotelaria precisa de colaboradores para funções mais operacionais, como empregados de andares, de copa, receção, portanto há toda essa necessidade de mão de obra efetiva e que não é exclusivamente formada nas escolas de hotelaria. A nossa expectativa está nas escolas técnico-profissionais, com cursos de turismo, de modo a que seja possível formar aí mais pessoas com este perfil e depois damos nós formação "in house", onde preparamos os profissionais para responder aos requisitos de uma atividade como a hotelaria. É de facto uma questão de preparação, que é comum a todas as áreas, como a indústria têxtil, calçado, construção civil.  
 
Este nosso "inverno demográfico", como dizem os demógrafos, constitui um problema para todas as atividades económicas do nosso país. Sente-se talvez mais no turismo, pois está com maior crescimento. Temos aqui uma necessidade específica e abundante. Das escolas de hotelaria e turismo do país saem profissionais que são imediatamente absorvidos, dado que a taxa de empregabilidade é de 100%, mas falta a mão de obra operacional de hotelaria.  
 
VE – Apesar dos bons tados de que temos vindo a falar na indústria hoteleira, é preciso aumentar o tempo de estada que ainda apresenta um valor crítico?  
 
CSV - São coisas distintas. A questão do prolongamento da estada (dizemos que um dia a mais no hotel é um dia a mais de investimento no país) não é uma questão que possa por si só, ser resolvida pelos hoteleiros. Temos dito que passa por encontrar pretextos para prolongar a visita, por um lado, e a oferta cultural tem aqui um papel fundamental, e, por outro lado, ancorar outros destinos e visitas nos destinos mais fortes, fazendo destes o "ponto de distribuição". Este é um trabalho articulado entre o Turismo de Portugal, os operadores e as agências regionais. 
Já o projeto Click2Portugal é um projeto muito importante de capacitação dos hotéis para o digital e que serve igualmente como agregador da oferta.  

in Vida Económica

Voltar